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sábado, 31 de dezembro de 2016

Boa notícia para começar 2017: novo medicamento para os plexiformes?

Temos um motivo de esperança para começarmos o novo ano: foram publicados ontem no New England Journal of Medicine, uma das mais importantes revistas médicas do mundo, os resultados dos estudos pré-clínico (em camundongos) e de Fase 1 (com 24 crianças e adolescentes entre 3 a 18 anos) obtidos com um novo medicamento chamado SELUMETINIBE no tratamento de neurofibromas plexiformes (ver AQUI o artigo em inglês).

Sabemos que até hoje não dispomos de um tratamento eficiente para os neurofibromas plexiformes que atingem metade das pessoas com NF1 e geralmente são congênitos, ou seja, estão presentes desde o nascimento embora possam se tornar visíveis apenas depois dos primeiros meses ou anos de vida. Os plexiformes geralmente apresentam sua maior taxa de crescimento no começo da infância e depois podem permanecer estáveis.

Os plexiformes variam em tamanho e profundidade, podem ser pequenos ou grandes, alguns não causam sintomas, mas outros podem provocar deformidades, dor e problemas funcionais. Além disso, cerca de 1 em cada 5 deles, especialmente os mais volumosos e profundos, pode se transformar em tumor maligno. Portanto, os plexiformes constituem uma preocupação para as famílias que esperam ansiosamente por uma forma de tratamento além da cirurgia, a qual geralmente não apresenta resultados plenamente satisfatórios.

Por isso, há uma busca intensa entre os especialistas em NF por um tratamento medicamentoso para os plexiformes e foi isso que fez a equipe liderada pela Dra. Brigit Widemann, do Instituto de Pesquisa em Câncer Pediátrico de Bethesda nos Estados Unidos. A equipe iniciou em 2011 um estudo com o medicamento SELUMETINIBE produzido pelo laboratório farmacêutico Astra-Zeneca em camundongos e em crianças e adolescentes com plexiformes e apresentaram seus resultados ontem.

A equipe observou que depois do uso oral do SELUMETINIBE por cerca de um ano e meio, TODOS os plexiformes apresentaram alguma redução com o medicamento, que diminuíram entre 5% até 45% de volume na ressonância magnética, além de apresentarem menos dor, menos disfunção e deformidade. Estes resultados permaneceram estáveis cerca de um ano depois de concluída a fase experimental.

Segundo os pesquisadores, o medicamento foi bem tolerado pelas pessoas (alguns poucos casos de acne, sintomas intestinais, baixa de neutrófilos no hemograma e aumento da creatinofosfoquinase) e apenas uma redução transitória da função cardíaca de um dos voluntários.

Como acontece com toda pesquisa científica, tenho algumas dúvidas sobre o estudo. Primeiro, o tamanho (volume) dos plexiformes estudados variou de 29 ml (ou seja, pouco maior que uma colher de sopa) até 8744 ml (ou seja, um tumor do tamanho de uma criança de seis meses de idade). Será que a causa e o comportamento destes tumores são semelhantes o bastante para tirarmos conclusões parecidas sobre o efeito do medicamento? 

Segundo, tenho receio de que a participação do laboratório farmacêutico Astra-Zeneca no fornecimento da droga, na análise dos resultados da dosagem sanguínea e na redação e submissão do artigo científico, possa ter influenciado de alguma forma a seleção dos voluntários, a exclusão de outros e a interpretação dos resultados. Sabe-se que os interesses financeiros da indústria farmacêutica fazem com que ela se comporte de forma criminosa muitas vezes.

No entanto, na minha opinião, este é o resultado mais promissor de todos os estudos que conheço que testaram medicamentos no tratamento de neurofibromas plexiformes, o que me traz esperança de que num futuro breve as Fases 2 e 3 da pesquisa com o SELUMETINIBE confirmem estes resultados iniciais e o medicamento possa se constituir numa recomendação de consenso internacional.

Até lá, bom ano novo para todas as famílias que juntas enfrentam as NF.


PS: Agradeço o desenho da Alice, minha neta, que ilustra este post.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Novo estudo publicado mostra os efeitos da NF1 sobre a estatura e o peso


Acaba de ser publicado na Revista Brasileira de Medicina mais um estudo realizado em nosso Centro de Referência em Neurofibromatoses do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ver AQUI aqui o artigo completo em inglês).

A pesquisa foi conduzida pelo nutricionista Marcio Leandro de Souza durante seu mestrado, sob as orientações dos professores Ann Jansen e Nilton Rezende e contou com a colaboração de 60 pessoas com neurofibromatose do tipo 1 (NF1) que se prontificaram a serem examinadas do ponto de vista nutricional. Agradecemos a todas estas pessoas que contribuíram para que tenhamos mais conhecimento científico sobre a NF1.

Em resumo, o estudo mostrou que aquilo que clinicamente era suspeitado foi observado: a baixa estatura e o baixo peso são mais comuns nas pessoas com NF1 do que na população em geral. Também verificou-se menor massa muscular, o que está de acordo com nossos estudos anteriores que mostraram menor força muscular (ver  AQUI ) e menor capacidade aeróbica (ver AQUI).

Quero esclarecer que uma pessoa com NF1 pode apresentar baixa estatura ou baixo peso ou menor massa muscular ou todos estes fatores juntos e levar uma vida plena e feliz, porque nossa civilização desenvolveu equipamentos que dispensam a necessidade de muito músculo e grande tamanho corporal para realizarmos as atividades cotidianas.

No entanto, nossa cultura privilegia as pessoas mais altas e mais fortes, criando padrões estéticos que geram infelicidade naquelas pessoas que estão fora daquele modelo de beleza. O resultado disso é que muitas famílias saem em busca de medicamentos para aumentar a estatura, dietas para ganhar peso e suplementos para desenvolvimento dos músculos.

Todas estas procuras podem ser inúteis (porque não funcionam nas pessoas com NF1) e perigosas, porque hormônios do crescimento podem desencadear o aparecimento e aumento dos neurofibromas nas pessoas com NF1, dietas para ganhar peso podem resultar em obesidade (somente gordura sem músculos) e muitos suplementos geralmente contém hormônios masculinos (anabolizantes) que podem trazer graves consequências para a saúde física e mental das pessoas.

Assim, é fundamental compreendermos que cada pessoa possui suas próprias características, com ou sem NF1, que a definem como ser humano e que ninguém deve ser forçado a se transformar num padrão inventado pela sociedade.

Devemos respeitar o que somos, o corpo que temos e encontrar a felicidade dentro de nossos limites.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Notícias extras - Uma casa de acolhimento e um esclarecimento

Ontem visitei a CAPE, a Casa de Acolhida Padre Eustáquio, fundada em 2013 e que recebe crianças e adolescentes (com seus acompanhantes) que vêm de outras cidades para tratamento médico para vários tipos de cânceres em Belo Horizonte.

Apesar da maioria das pessoas com neurofibromatoses apresentarem tumores benignos (e não malignos, que são os cânceres), três famílias com NF1 já foram acolhidas na CAPE e duas delas relataram sua grande satisfação com o acolhimento recebido.

Por isso, visitei a CAPE, onde fui recebido pela Assistente Social Simone Souza, uma pessoa simpática e excelente profissional que me conduziu pelos diversos setores da instituição, causando-me ótima impressão da casa pelas condições psicológicas, físicas e de conforto oferecidas pela CAPE a até 120 acolhidos.

Simone abriu as portas para as pessoas com NF que necessitarem permanecer em Belo Horizonte para tratamento e que forem encaminhadas a partir de nosso Centro de Referência em Neurofibromatoses por intermédio do Serviço Social do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais.

Quem desejar conhecer mais sobre a CAPE basta clicar aqui: CLIQUE AQUI


Esclarecimento

Recentemente, divulguei o financiamento coletivo de um livro que escrevi e desenhei junto com minha neta Alice, uma narrativa divertida para crianças sobre a interação entre genética e cultura.

Muitas pessoas pensaram que era para doarem dinheiro para o livro.

Na verdade, é uma pré-venda, ou seja, você compra o livro por cartão ou boleto e receberá o livro em sua casa. Caso a nossa meta de financiamento não seja atingida em 45 dias, você receberá seu dinheiro de volta.

Para saber mais sobre o livro das "Gêmeas que ficaram diferentes" CLIQUE AQUI

sábado, 17 de dezembro de 2016

Até breve

Nosso Centro de Referência em Neurofibromatoses entrará em recesso a partir da próxima semana e retornaremos em fevereiro do próximo ano.

2016 se encerra com muitos acontecimentos importantes para todxs nós que procuramos enfrentar com ações construtivas as dificuldades causadas pelas neurofibromatoses.

Uma das nossas realizações foi termos atingido mais de mil famílias cadastradas no Centro de Referência do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, onde recebem nosso atendimento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Por outro lado, tanto a Universidade quanto o SUS estão ameaçados de desinvestimento e corte de recursos pelo governo atual que pretende reduzir os benefícios sociais oferecidos pelo estado brasileiro.

Também conseguimos imprimir mais mil exemplares da terceira edição atualizada da cartilha “As manchinhas da Mariana”, com novas informações, inclusive sobre NF2 e Schwannomatose (ver aqui: http://lormedico.blogspot.com.br/p/cartilha-sobre-neurofibromatose-do-tipo.html ). No entanto, a Associação Mineira de Apoio às Pessoas com Neurofibromatoses (AMANF) gastou seus últimos recursos financeiros nesta edição e não temos conseguido receber novas doações financeiras por causa da crise econômica.

Por um lado, descrevemos mais duas manifestações comuns da neurofibromatose do tipo 1 que nunca haviam sido identificadas cientificamente: 1) a menor tolerância ao calor observada na tese de doutorado da Luciana Madeira e publicada (ver aqui: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2016001000796&lng=en&nrm=iso ) e 2) as dificuldades musicais observadas na dissertação de mestrado do Bruno Cota, aprovada recentemente. No entanto, estamos temerosos de que os recursos governamentais para pesquisa científica diminuam ainda mais daqui para a frente, com os cortes do governo Temer.

Concluímos o primeiro Curso de Capacitação em Neurofibromatoses destinado a pessoas com NF, seus familiares e profissionais da saúde. Por outro lado, ainda não temos garantia institucional de continuidade do atendimento médico no nosso ambulatório para quando eu e o Dr. Nilton atingirmos nossos 70 anos ou adoecermos ou viermos a falecer.

Por um lado, atingimos mais de 120 mil acessos neste blog, onde pessoas de todas as partes do Brasil (e mesmo de fora do país) buscaram informações sobre as neurofibromatoses. Por outro lado, metade da população brasileira não tem acesso à internet, assim, este blog ainda não consegue ser útil para metade dos brasileiros com neurofibromatoses.

Realizamos palestras educativas, participamos de congressos científicos nacionais e internacionais, publicamos artigos em revistas especializadas e respondemos a centenas de e-mails com informações sobre as NF, mas ainda faltam ortopedistas que nos ajudem a cuidar das displasias da tíbia e das cifoescolioses, faltam cirurgiões plásticos que nos ajudem a corrigir as deformidades causadas pelos neurofibromas plexiformes, faltam clínicas de dor que nos ajudem a controlar a dor neuropática e faltam fonoaudiólogos e psicólogos para diversos problemas causados pelas NF.

Enfim, há conquistas alcançadas e novas metas a serem atingidas, em especial a criação de novos centros de atendimento especializado em NF em outras regiões do Brasil.

Apesar de todas as dificuldades econômicas e políticas que estamos passando no momento, precisamos manter a união e continuarmos lutando pelo nosso principal objetivo que é melhorar a vida das pessoas com NF e suas famílias.

Abraço a todxs com esperança.

Lor


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Dá para voltar para casa, guria?

Depois de amanhã a PEC 55, aquela que reduzirá o tamanho do estado social brasileiro, será Lei.

Foi dado mais um passo da liberalização da economia no sentido de serem retiradas as poucas e frágeis rédeas do estado sobre a besta voraz do capitalismo, uma fase da humanidade que está ocorrendo em vários países.

No Brasil, a redução dos investimentos públicos em saúde, educação e previdência, que já são insuficientes e ineficazes, abrirão as portas para as empresas privadas ocuparem estes espaços do mercado e explorarem seu grande potencial de lucros.

A flexibilização das leis trabalhistas, leia-se uberização de todas as profissões, permitirá a desvalorização da mão de obra, o aumento da pressão do exército de desempregados sobre os poucos postos de trabalho, reduzindo salários e aumentando lucros.

A reforma da previdência promoverá uma série de injustiças ao aumentar a idade mínima para homens e mulheres da mesma forma, desconsiderando as diferenças entre a jornada dupla de trabalho das mulheres, a remuneração menor do trabalho das mulheres e a contribuição exclusiva das mulheres para o bem mais precioso da humanidade que é a gestação de um novo ser humano. As diferenças contra as mulheres expropriam o corpo das mulheres e, ainda que elas vivam um pouco mais do que os homens, a sua qualidade de vida nestes anos extra é marcada por mais doenças e sofrimentos resultantes da exploração do seu trabalho ao longo da vida.

Além disso, nas últimas décadas a expectativa de vida aumentou, sim, mas diferentemente para cada classe social: os mais ricos, brancos e sulistas vivem mais, mas os mais pobres, negros e nordestinos não ganharam anos de vida na mesma proporção. Além disso, existem profissões que desgastam mais e outras que desgastam menos a saúde das pessoas. Sim, é um absurdo um professor universitário se aposentar aos 45 anos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas vejam que a maioria dos trabalhadores em minerações jamais atingirá os 65 anos propostos pelo governo pau mandado dos empresários internacionais.

O resultado de tudo isso e de outras medidas que estão sendo tramadas pela quadrilha de fichas limpas num certo lava-jato, já sabemos, será o aumento da concentração de renda, da desigualdade social que desperta os monstros que existem em nós: a violência, o medo do estrangeiro, o fanatismo religioso e político, o tráfico de pessoas e de órgãos, o machismo e a as guerras civis.

Mas depois de amanhã, a PEC será Lei.

Aqueles que resistiram à sua aprovação, contra a imensa máquina de propaganda do empresariado (leia-se TV aberta, grandes jornais, poderes executivo, legislativo e judiciário), ainda estão nas ruas, ocupando universidades e escolas públicas. Continuam levantando suas vozes nas redes sociais, protestando, propondo novas alternativas à PEC 55, como cobrar a dívida dos empresários com a previdência, cobrar a dívida dos grandes sonegadores do imposto de renda, taxar as grandes fortunas, criar o imposto sobre o lucro dos bancos e outras soluções para a crise brasileira, mas que sejam A FAVOR DO POVO.

E agora, que a PEC 55 é Lei, dá para dizer para a juventude: voltem para casa, moçada, que o jogo acabou?

Não se trata de um jogo de futebol, como o governo Temer comemorou, em que um campeonato praticamente não afeta o resultado do campeonato seguinte. Esta votação vencida pelo governo atingirá toda uma geração que sofrerá ainda mais do que a atual com os 20 anos de redução do poder protetor do estado brasileiro contra os abusos do capitalismo.

Usando expressões do futebol, o governo atual não joga para vencer a crise, nem para a torcida chamada opinião pública, mas joga rapidamente para seus patrocinadores ao implementar uma política econômica de longo prazo em benefício do empresariado internacional.

Esta política já começou a destruir o pequeno barracão que vínhamos arduamente construindo desde a Constituição de 1988.

Portanto, gurizada, não há casa para voltar.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Um livro para crianças que ajuda a entender a genética

Alice, minha neta, e eu convidamos você que acompanha este blog para participar da publicação de um livro que criamos juntos e Alice ilustrou.

O livro chama-se “As gêmeas que ficaram diferentes”.

É uma história interessante e divertida na qual as crianças acabam compreendendo melhor como a cultura e a genética se unem no desenvolvimento humano.

É um conhecimento útil para você e todos nós que enfrentamos as neurofibromatoses.

O livro ganhou o selo “Pedagogicamente Responsável” da Editora Educore.

Veja como é simples e seguro participar.

No site da Editora Educore você compra o livro antecipadamente (com cartão de crédito ou boleto). Clique aqui para entrar no site : http://infanciar.juntos.com.vc/pt

Em dois meses (ou antes) quando atingirmos o custo editorial, você receberá em sua casa o livro e a recompensa que escolheu (veja no site as diversas recompensas).

Para cada livro comprado, um outro exemplar será doado a uma escola ou instituição educacional carente. Você estará ajudando estas crianças com a sua participação.

Caso nossa meta não seja atendida, (o que você não vai deixar acontecer, é claro!), você receberá seu dinheiro de volta.

Então, eu e Alice já estamos esperando você!

Obrigado.

Lor

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Blog ocupado - com a maior jornalista do Brasil: Eliane Brum

Apesar da crise que nos abate e entristece, a Associação Mineira de Apoio às Pessoas com Neurofibromatoses conseguiu imprimir mais 1100 exemplares da cartilha “As manchinhas da Mariana”, na sua terceira edição atualizada, com novas informações, incluindo algumas informações sobre NF2 e Schwannomatose. Estas cartilhas são diretamente distribuídas às famílias que não têm acesso à internet.

A versão em PDF está disponível neste blog (aqui ao lado), baixa baixar e imprimir.

Divulgue e faça sugestões e críticas para a próxima edição.

Deixo com vocês mais um texto lúcido e esclarecedor da maior jornalista do Brasil: Eliane Brum.
Denúncia de Facebook



Eliane Brum
26, de Setembro de 2016

Ao apresentar a denúncia contra Luiz Inácio Lula da Silva , o procurador da República Deltan Dallagnol apanhou de (quase) todos os lados, algo bastante raro nestes tempos. Tão raro que merece algum espanto e um tanto de precaução. Em diferentes partes do seu discurso durante a coletiva de imprensa de 14 de setembro , ele chamou Lula de ?comandante máximo? do que definiu como ?propinocracia?, de ?o grande general? do esquema de corrupção e de ?maestro da orquestra criminosa?.Disparou metáforas e abusou dos adjetivos Mas quando efetivamente fez a denúncia, a força-tarefa daLava Jato , em Curitiba, acusou Lula pelos crimes de corrupção e de lavagem de dinheiro. O que não é pouco, mas é bem diferente de ser o chefe de uma organização criminosa. O episódio é pródigo de sentidos sobre o Brasil atual. Um deles é a corrosão da linguagem. O outro é a demanda por crença. Estas duas dimensões se articulam na gênese do atual momento do país.

O procurador Deltan Dallagnol não parecia estar num tribunal de júri, como chegou a ser sugerido em algumas críticas sobre sua atuação, mas em outra arena, a das redes sociais. Ele não parecia preocupado em informar cidadãos, mas em buscar seguidores. Como um candidato a herói nesta época,seu troféu são cliques no botão de ?curtir?

O representante do Ministério Público Federal acusou sem exibir provas, apresentou como verdade o que não era capaz de provar como verdade. Ao descolar-se da realidade, esvaziou as palavras, o que deveria ser denúncia virou grito. Como no cotidiano das redes sociais, repete-se e repete-se algo para que, pela viralização, ganhe status de verdade.
De imediato, veio a reação. O gráfico do powerpoint em que Dallagnol tentava mostrar como tudo convergia para Lula virou meme. E o que viralizou foi uma frase atribuída ao procurador: ?Não temos provas, mas temos convicção?.
Esta é a parte mais interessante dessa produção de conteúdo viral. A frase não foi dita. Ela era também uma criação. Ainda que seja possível interpretar o conjunto da apresentação do procurador desta maneira, há enorme diferença entre uma afirmação literal, entre aspas, e a interpretação ou conclusão a que um outro possa chegar a partir do que foi dito. Se essa distinção não é estabelecida, perde-se o sujeito e perde-se o discurso.

Naquele momento, a disputa se dava numa guerra de verdades fabricadas. Nas redes, a viralização ou a multiplicação dos compartilhamentos é a melhor estratégia para conferir veracidade a algo ou mesmo transformar versão em fato. Ou ainda, é uma forma de criar realidade.

Não estou aqui dizendo que realidade, verdade e fato são a mesma coisa. O que estou sugerindo como hipótese é que a convocação ? ou invocação ? é a mesma tanto na ação ? a denúncia verbal dos procuradores diante das câmeras de TV ? quanto na reação a ela nas redes. Não se pede pensamento, mas adesão pela fé. A verdade torna-se uma questão de crença ? e a realidade se afirma pela quantidade de crentes que a ela aderem. A experiência cognitiva é substituída pelo botão de ?curtir?. Em vez da reflexão, o espasmo.

De um lado e de outro, o que aparece como mais importante é a convicção, não as provas. E uma convicção formada a partir da quantidade de cliques. Esse desejo feroz de crença tem corroído o país de forma insidiosa. E só persiste porque os fatos, para um e outro lado, são inconvenientes. O problema é que mesmo a história recente já mostrou que tentar contornar os fatos, por mais duros que sejam, resulta em fatos ainda piores.

No caso específico da denúncia de Lula, tanto a ação quanto a reação buscavam adesão pela crença. Os fatos importavam pouco. É necessário, porém, fazer uma distinção de responsabilidades. Deltan Dallagnol falava como procurador da República. Servidor público no exercício de suas funções constitucionais. Quando ele acusa sem apresentar provas, a gravidade é de outra ordem. Pela posição que ocupa, sua palavra tem mais potencial para ser decodificada como verdade. Ao falar como procurador, ele não representa a si mesmo, mas a instituição.

Essa dinâmica assumida pela figura que representa a força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba chama atenção para a ?justiça? que ganha rosto, e que ganha rosto na era da internet. Numa analogia com as redes, ao fazer acusações gravíssimas sem lastro nas provas, Dallagnol faz um ?discurso de ódio?. Neste sentido, o procurador não é muito diferente de um dos ?haters? (odiadores) da internet, ao chamar Lula de ?maestro da orquestra criminosa? sem mostrar o que sustenta essa acusação.

Torna-se preciso então olhar para o indivíduo Deltan Dallagnol, este que personifica o que não deveria ser personificado. Num ótimo texto publicado no jornal Valor , a jornalista Maria Cristina Fernandes conta sobre pessoalidades que ajudam a iluminar algumas escolhas do procurador. Uma delas é a sua admiração por um vídeo da plataforma TED em que o músico Derek Sivers ensina, em três minutos, ?como iniciar um movimento?.

Na tela, há um jovem sem camisa que dança freneticamente numa montanha. Em seguida, outra pessoa junta-se a ele, tornando-se o ?primeiro seguidor?. Logo, todos o imitam. Um líder, segundo Sivers, precisa ter a coragem de arriscar-se a ser ridicularizado. Quando ele recebe adesão em número razoável, a situação se inverte e quem passa a se sentir ridículo é aquele que não adere. O mais importante: ?É o seguidor que transforma o solitário em um líder?. Como autor de um vídeo com quase 6 milhões de visualizações, Sivers certamente sabe o que diz.

Deltan Dallagnol incorporou este vídeo em suas palestras sobre as 10 medidas anticorrupção. Exibiu-o em fevereiro deste ano ao falar no evento ?The Global Leadership Summit?, na Primeira Igreja Batista de Curitiba. O procurador disse então à plateia : ?Tenha a coragem para saber ser liderado. Para se levantar e, quando você vê uma causa boa, se juntar ao maluco solitário que está dançando?.
E, alguns minutos mais tarde: ?Lute pelas causas que você ama como você lutaria por um filho com câncer. Eu duvido que você desistisse de um filho doente com câncer por mais que inúmeros médicos buscassem tirar suas esperanças. Você continuaria lutando, você dobraria os joelhos, você buscaria o impossível, porque você ama aquele filho. Assim como você lutaria por esse filho, meu desafio hoje para você é que você lute pelo teu país?.

Em sua pregação anticorrupção, Dallagnol invoca do púlpito a oportunidade de mudar o país. E faz a comparação: ?Talvez você tenha ido pro Paraguai ou pra Miami e tenha lá pensado o seguinte: eu não gastaria isso que estou gastando, mas aqui é tudo mais barato e vou aproveitar porque é uma oportunidade?. Pede então à plateia para ?curtirem? sua página pública, ?em nome de Deltan Dallagnol?, no Facebook: ?Eu não sabia, porque eu era ignorante em Facebook. Mas, quando você curte uma página você passa a ser alimentado pelo que é postado lá?. E encerra com uma pergunta: ?Nós podemos contar com você??. Pede então que aqueles que apoiam ?as 10 medidas? levantem as mãos. Registra a imagem em seu celular. ?Um dois três... sensacional?.

Deltan Dallagnol é um homem que se investe de uma missão e se apresenta no Twitter como ?seguidor de Jesus?. As aparições públicas do procurador demonstram que ele pede adesão pela fé no líder ? ou no ?maluco solitário? que, pela adesão , torna-se líder. Como se viu na apresentação da denúncia contra Lula, em 14 de setembro, ele também parece seguir à risca o ensinamento do guru Derek Sivers de não temer o ridículo.

É neste ponto que vale observar os últimos dias com atenção redobrada. A cobertura da denúncia foi um daqueles momentos em que uma parcela da imprensa fez o seu papel, ao lançar luz sobre pelo menos dois pontos importantes do espetáculo estrelado por Deltan Dallagnol: 1) a diferença entre a acusação verbal, a de chefe de uma organização criminosa, e a denúncia formal, a de corrupção e lavagem de dinheiro; 2) a escassez de provas para sustentar a denúncia. Uma parte da imprensa também fez seu papel ao mostrar que a frase atribuída ao procurador ? ?Não temos provas, mas temos convicção? ? não foi dita por ele.

Mas será que era a esta parcela da população, a que se informa por determinados jornais, que Dallagnol se dirigia ao fazer sua frenética dança na montanha? A apresentação da força-tarefa da Lava Jato foi transmitida por algumas TVs. O vídeo está no YouTube. Quantos milhões não viram apenas isso? O que vira ?verdade? nas redes? O que permanece como ?fato?? Qual é a ?realidade? que efetivamente se impõe?

É razoável supor que Deltan Dallagnol sabia o que fazia ao optar por uma acusação midiática diferente da denúncia formal. Quantos assistiram e assistirão a trechos em vídeo da fala espetaculosa e quantos lerão as 149 páginas da denúncia formal ou as críticas mais densas a ela? É na convicção de seus seguidores ? e não nas provas ? que Dallagnol parece apostar.

É bastante difundida a hipótese de que a fragilidade da denúncia deva ser comemorada pela defesa de Lula. No julgamento, sim. Mas e no justiçamento? Onde se ganha a fé das pessoas, a fé que vira voto, já que é também crença ? e não razão ? que hoje se pede aos eleitores? O impeachment de Dilma Rousseff , claramente sem base legal, mostra bem o que é determinante no resultado da disputa.

O espetáculo comandado pelo maestro Deltan Dallagnol levanta questões importantes. Qual é o impacto dessa atuação ? acusar sem apresentar as provas ? num país no qual ainda há tanta dificuldade de acesso à Justiça para vastas parcelas da população? Qual é o impacto deste exemplo, por parte de um servidor público com tanta expressão, no imaginário de uma sociedade que produz tantos linchamentos?

Essas questões são tudo menos banais. Se a Lava Jato tem que ser reconhecida pelos seus acertos, que são vários, é imperativo que ela responda pelos seus abusos, que também são vários, porque eles têm impacto e muito numa sociedade em que os discursos de ódio têm proliferado. Quando procuradores e juízes fazem justiçamentos em vez de justiça, o Estado de direito está ameaçado.

Há vários tipos de estupidez que costumam acometer figuras lançadas de repente ao centro do palco. Uma delas é a de acreditar na própria lenda. Ou na potência do seu protagonismo. A vaidade costuma fazer muitas vítimas. E há ainda aquela ilusão tão sedutora de se achar mais esperto do que todos os outros no jogo que pretende intervir. Já que a fé tem sido tão invocada por Deltan Dallagnol, talvez o procurador ?seguidor de Jesus? seja jovem demais para lembrar que o diabo sabe mais por ser velho do que por ser diabo. E, assim, olhar mais atentamente para todos os lados antes de se arriscar a pirotecnias. A começar para o lado de quem o elogia e o estimula ao espetáculo.

É fundamental para o país que a Operação Lava Jato continue. A prudência sugere desconfiar de unanimidades onde não costuma haver. Desqualificar a Lava Jato, neste momento, serve para muitos. Lula porque de fato virou réu e vai precisar se defender formalmente na Justiça. Com o agravante de que sua mulher, Marisa Letícia, também virou ré, o que é um golpe bastante duro. Mesmo que Lula não seja condenado na Justiça, porém, ele já foi condenado por parte da opinião pública. Deste ponto de vista, ainda que os acontecimentos dos últimos dias tenham mostrado que outras figuras estratégicas do PT poderão ser alcançadas pelas investigações, são seus oponentes que possivelmente tenham mais a perder neste momento.

Há muitos com medo de que a Lava Jato siga investigando e os transforme em réus. Assim, vale tudo, até se indignar contra os abusos da operação, indignação que não ocorreu em episódios claramente abusivos como o da ?condução coercitiva? de Lula ou o do vazamento dos diálogos de Lula com a então presidente Dilma Rousseff.

Quando até mesmo uma figura com a folha corrida do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), critica a Lava Jato dizendo que é ?preciso acabar com o exibicionismo?, é necessário ouvir a sirene. Este é o momento escolhido por diferentes personagens para enfraquecer a Lava Jato, com o objetivo de impedir que a operação prossiga em direção a outras lideranças e outros partidos e outros governos, no passado e no presente, para muito além do PT.

Há ainda a hipótese de que a Lava Jato tivesse desde sempre orientada para uma investigação seletiva. E não interesse nem a seus agentes que ela prossiga para além do ?grande general?. O espetáculo constrangedor da denúncia de Lula reforçou essa tese. Cabe aos policiais federais, procuradores e juízes mostrar que não têm partido nem ideologia na hora de investigar. Neste sentido, os próximos capítulos são decisivos para que a Lava Jato mostre a que veio.

O xadrez em torno da Lava Jato é intrincado. É preciso entender se, neste jogo, Deltan Dallagnol é bispo ou apenas um peão que acredita ser bispo. O que se pode afirmar é que, para a maioria dos brasileiros, é crucial que a Lava Jato continue avançando e de fato passe a limpo a relação entre poder público e empreiteiras, para muito além dos governos de Lula e de Dilma Rousseff. Essa relação é mais antiga do que a construção literal de Brasília. E define muito do país. Para isso, é preciso que policiais, procuradores e juízes sejam policiais, procuradores e juízes ? e não justiceiros nem heróis de Facebook.

Assim, antes de ?curtir?, é importante resgatar a experiência do pensamento, esta que nos diferenciou dos outros grandes primatas. Espantar-se, duvidar, questionar, checar e, principalmente, diferenciar o que é fato do que é versão antes de sair clicando e gritando. E tudo isso sem medo de enfrentar as contradições, resistindo mesmo que doa à tentação de contornar as verdades mais duras. Há muitos líderes ou aspirantes a líder dançando freneticamente na montanha para atrair seguidores.

Não siga. Pense.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Blog ocupado - Sobre as manifestações do dia 4 e dia 13 de dezembro

Esclarecimento das frentes populares: 


“As Frentes não apoiam e nem participarão da manifestação convocada pelo Vem Pra Rua, um grupo de direita, golpista, que utiliza de forma demagógica e oportunista o suposto combate à corrupção. Financiado por organizações e partidos conservadores e instituições estrangeiras que objetivam impor ao Brasil o receituário neoliberal, eles são os mesmos que foram às ruas para defender o golpe, apoiar Eduardo Cunha e a perseguição política seletiva do Juiz Sérgio Moro, agente do imperialismo norte americano e das forças reacionárias internas.

No dia 04/12 estarão nas ruas aqueles que defendem que juízes e procuradores tenham plena liberdade para perseguirem quem desejar - seus alvos são predominantemente a esquerda e os movimentos sociais -, e que fiquem impunes quando comentem crimes.

Não compactuamos com a tese de quem votou a favor da emenda do abuso de autoridade seja caracterizado como a favor da corrupção e muito menos de que quem votou contra seja paladino da moralidade.

O Brasil não pode ser chantageado por uma casta de privilegiados que recebe salários acima do teto estabelecido pela constituição, para impor ao povo um poder não referendado nas urnas e com sinais claros de elementos do fascismo.

Os mesmos grupos que convocam a citada manifestação comemoraram a aprovação da PEC do fim do mundo e a violenta repressão aos movimentos sociais em Brasília aos estudantes e trabalhadores que lá protestavam contra o golpe à Constituição de 1988 no dia 29/11.

Portanto, é necessário esclarecer que diante de certa confusão gerada a partir de boatos nas redes sociais, que os trabalhadores, a juventude e os movimentos sociais em geral não irão se misturar com os patrocinadores do golpe de Temer e Cunha - os mesmos que estão na linha de frente da campanha pelas reformas da previdência e trabalhista e tantos outros ataques às conquistas do povo Brasileiro. Nosso lado é o da democracia e por ampliação de direitos.

A Frente Povo Sem Medo ocupará as ruas no DIA 13/12 com o lema: NÃO À PEC 55 E À REPRESSÃO AOS MOVIMENTOS SOCIAIS.

A proposta é persistir na luta para denunciar e derrotar a PEC da maldade e ao mesmo tempo protestar contra a violência que se abate sobre os manifestantes que estão nas ruas contra o golpista Temer e sua quadrilha.”