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sábado, 31 de dezembro de 2016

Boa notícia para começar 2017: novo medicamento para os plexiformes?

Temos um motivo de esperança para começarmos o novo ano: foram publicados ontem no New England Journal of Medicine, uma das mais importantes revistas médicas do mundo, os resultados dos estudos pré-clínico (em camundongos) e de Fase 1 (com 24 crianças e adolescentes entre 3 a 18 anos) obtidos com um novo medicamento chamado SELUMETINIBE no tratamento de neurofibromas plexiformes (ver AQUI o artigo em inglês).

Sabemos que até hoje não dispomos de um tratamento eficiente para os neurofibromas plexiformes que atingem metade das pessoas com NF1 e geralmente são congênitos, ou seja, estão presentes desde o nascimento embora possam se tornar visíveis apenas depois dos primeiros meses ou anos de vida. Os plexiformes geralmente apresentam sua maior taxa de crescimento no começo da infância e depois podem permanecer estáveis.

Os plexiformes variam em tamanho e profundidade, podem ser pequenos ou grandes, alguns não causam sintomas, mas outros podem provocar deformidades, dor e problemas funcionais. Além disso, cerca de 1 em cada 5 deles, especialmente os mais volumosos e profundos, pode se transformar em tumor maligno. Portanto, os plexiformes constituem uma preocupação para as famílias que esperam ansiosamente por uma forma de tratamento além da cirurgia, a qual geralmente não apresenta resultados plenamente satisfatórios.

Por isso, há uma busca intensa entre os especialistas em NF por um tratamento medicamentoso para os plexiformes e foi isso que fez a equipe liderada pela Dra. Brigit Widemann, do Instituto de Pesquisa em Câncer Pediátrico de Bethesda nos Estados Unidos. A equipe iniciou em 2011 um estudo com o medicamento SELUMETINIBE produzido pelo laboratório farmacêutico Astra-Zeneca em camundongos e em crianças e adolescentes com plexiformes e apresentaram seus resultados ontem.

A equipe observou que depois do uso oral do SELUMETINIBE por cerca de um ano e meio, TODOS os plexiformes apresentaram alguma redução com o medicamento, que diminuíram entre 5% até 45% de volume na ressonância magnética, além de apresentarem menos dor, menos disfunção e deformidade. Estes resultados permaneceram estáveis cerca de um ano depois de concluída a fase experimental.

Segundo os pesquisadores, o medicamento foi bem tolerado pelas pessoas (alguns poucos casos de acne, sintomas intestinais, baixa de neutrófilos no hemograma e aumento da creatinofosfoquinase) e apenas uma redução transitória da função cardíaca de um dos voluntários.

Como acontece com toda pesquisa científica, tenho algumas dúvidas sobre o estudo. Primeiro, o tamanho (volume) dos plexiformes estudados variou de 29 ml (ou seja, pouco maior que uma colher de sopa) até 8744 ml (ou seja, um tumor do tamanho de uma criança de seis meses de idade). Será que a causa e o comportamento destes tumores são semelhantes o bastante para tirarmos conclusões parecidas sobre o efeito do medicamento? 

Segundo, tenho receio de que a participação do laboratório farmacêutico Astra-Zeneca no fornecimento da droga, na análise dos resultados da dosagem sanguínea e na redação e submissão do artigo científico, possa ter influenciado de alguma forma a seleção dos voluntários, a exclusão de outros e a interpretação dos resultados. Sabe-se que os interesses financeiros da indústria farmacêutica fazem com que ela se comporte de forma criminosa muitas vezes.

No entanto, na minha opinião, este é o resultado mais promissor de todos os estudos que conheço que testaram medicamentos no tratamento de neurofibromas plexiformes, o que me traz esperança de que num futuro breve as Fases 2 e 3 da pesquisa com o SELUMETINIBE confirmem estes resultados iniciais e o medicamento possa se constituir numa recomendação de consenso internacional.

Até lá, bom ano novo para todas as famílias que juntas enfrentam as NF.


PS: Agradeço o desenho da Alice, minha neta, que ilustra este post.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Novo estudo publicado mostra os efeitos da NF1 sobre a estatura e o peso


Acaba de ser publicado na Revista Brasileira de Medicina mais um estudo realizado em nosso Centro de Referência em Neurofibromatoses do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ver AQUI aqui o artigo completo em inglês).

A pesquisa foi conduzida pelo nutricionista Marcio Leandro de Souza durante seu mestrado, sob as orientações dos professores Ann Jansen e Nilton Rezende e contou com a colaboração de 60 pessoas com neurofibromatose do tipo 1 (NF1) que se prontificaram a serem examinadas do ponto de vista nutricional. Agradecemos a todas estas pessoas que contribuíram para que tenhamos mais conhecimento científico sobre a NF1.

Em resumo, o estudo mostrou que aquilo que clinicamente era suspeitado foi observado: a baixa estatura e o baixo peso são mais comuns nas pessoas com NF1 do que na população em geral. Também verificou-se menor massa muscular, o que está de acordo com nossos estudos anteriores que mostraram menor força muscular (ver  AQUI ) e menor capacidade aeróbica (ver AQUI).

Quero esclarecer que uma pessoa com NF1 pode apresentar baixa estatura ou baixo peso ou menor massa muscular ou todos estes fatores juntos e levar uma vida plena e feliz, porque nossa civilização desenvolveu equipamentos que dispensam a necessidade de muito músculo e grande tamanho corporal para realizarmos as atividades cotidianas.

No entanto, nossa cultura privilegia as pessoas mais altas e mais fortes, criando padrões estéticos que geram infelicidade naquelas pessoas que estão fora daquele modelo de beleza. O resultado disso é que muitas famílias saem em busca de medicamentos para aumentar a estatura, dietas para ganhar peso e suplementos para desenvolvimento dos músculos.

Todas estas procuras podem ser inúteis (porque não funcionam nas pessoas com NF1) e perigosas, porque hormônios do crescimento podem desencadear o aparecimento e aumento dos neurofibromas nas pessoas com NF1, dietas para ganhar peso podem resultar em obesidade (somente gordura sem músculos) e muitos suplementos geralmente contém hormônios masculinos (anabolizantes) que podem trazer graves consequências para a saúde física e mental das pessoas.

Assim, é fundamental compreendermos que cada pessoa possui suas próprias características, com ou sem NF1, que a definem como ser humano e que ninguém deve ser forçado a se transformar num padrão inventado pela sociedade.

Devemos respeitar o que somos, o corpo que temos e encontrar a felicidade dentro de nossos limites.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Notícias extras - Uma casa de acolhimento e um esclarecimento

Ontem visitei a CAPE, a Casa de Acolhida Padre Eustáquio, fundada em 2013 e que recebe crianças e adolescentes (com seus acompanhantes) que vêm de outras cidades para tratamento médico para vários tipos de cânceres em Belo Horizonte.

Apesar da maioria das pessoas com neurofibromatoses apresentarem tumores benignos (e não malignos, que são os cânceres), três famílias com NF1 já foram acolhidas na CAPE e duas delas relataram sua grande satisfação com o acolhimento recebido.

Por isso, visitei a CAPE, onde fui recebido pela Assistente Social Simone Souza, uma pessoa simpática e excelente profissional que me conduziu pelos diversos setores da instituição, causando-me ótima impressão da casa pelas condições psicológicas, físicas e de conforto oferecidas pela CAPE a até 120 acolhidos.

Simone abriu as portas para as pessoas com NF que necessitarem permanecer em Belo Horizonte para tratamento e que forem encaminhadas a partir de nosso Centro de Referência em Neurofibromatoses por intermédio do Serviço Social do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais.

Quem desejar conhecer mais sobre a CAPE basta clicar aqui: CLIQUE AQUI


Esclarecimento

Recentemente, divulguei o financiamento coletivo de um livro que escrevi e desenhei junto com minha neta Alice, uma narrativa divertida para crianças sobre a interação entre genética e cultura.

Muitas pessoas pensaram que era para doarem dinheiro para o livro.

Na verdade, é uma pré-venda, ou seja, você compra o livro por cartão ou boleto e receberá o livro em sua casa. Caso a nossa meta de financiamento não seja atingida em 45 dias, você receberá seu dinheiro de volta.

Para saber mais sobre o livro das "Gêmeas que ficaram diferentes" CLIQUE AQUI

sábado, 17 de dezembro de 2016

Até breve

Nosso Centro de Referência em Neurofibromatoses entrará em recesso a partir da próxima semana e retornaremos em fevereiro do próximo ano.

2016 se encerra com muitos acontecimentos importantes para todxs nós que procuramos enfrentar com ações construtivas as dificuldades causadas pelas neurofibromatoses.

Uma das nossas realizações foi termos atingido mais de mil famílias cadastradas no Centro de Referência do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, onde recebem nosso atendimento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Por outro lado, tanto a Universidade quanto o SUS estão ameaçados de desinvestimento e corte de recursos pelo governo atual que pretende reduzir os benefícios sociais oferecidos pelo estado brasileiro.

Também conseguimos imprimir mais mil exemplares da terceira edição atualizada da cartilha “As manchinhas da Mariana”, com novas informações, inclusive sobre NF2 e Schwannomatose (ver aqui: http://lormedico.blogspot.com.br/p/cartilha-sobre-neurofibromatose-do-tipo.html ). No entanto, a Associação Mineira de Apoio às Pessoas com Neurofibromatoses (AMANF) gastou seus últimos recursos financeiros nesta edição e não temos conseguido receber novas doações financeiras por causa da crise econômica.

Por um lado, descrevemos mais duas manifestações comuns da neurofibromatose do tipo 1 que nunca haviam sido identificadas cientificamente: 1) a menor tolerância ao calor observada na tese de doutorado da Luciana Madeira e publicada (ver aqui: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2016001000796&lng=en&nrm=iso ) e 2) as dificuldades musicais observadas na dissertação de mestrado do Bruno Cota, aprovada recentemente. No entanto, estamos temerosos de que os recursos governamentais para pesquisa científica diminuam ainda mais daqui para a frente, com os cortes do governo Temer.

Concluímos o primeiro Curso de Capacitação em Neurofibromatoses destinado a pessoas com NF, seus familiares e profissionais da saúde. Por outro lado, ainda não temos garantia institucional de continuidade do atendimento médico no nosso ambulatório para quando eu e o Dr. Nilton atingirmos nossos 70 anos ou adoecermos ou viermos a falecer.

Por um lado, atingimos mais de 120 mil acessos neste blog, onde pessoas de todas as partes do Brasil (e mesmo de fora do país) buscaram informações sobre as neurofibromatoses. Por outro lado, metade da população brasileira não tem acesso à internet, assim, este blog ainda não consegue ser útil para metade dos brasileiros com neurofibromatoses.

Realizamos palestras educativas, participamos de congressos científicos nacionais e internacionais, publicamos artigos em revistas especializadas e respondemos a centenas de e-mails com informações sobre as NF, mas ainda faltam ortopedistas que nos ajudem a cuidar das displasias da tíbia e das cifoescolioses, faltam cirurgiões plásticos que nos ajudem a corrigir as deformidades causadas pelos neurofibromas plexiformes, faltam clínicas de dor que nos ajudem a controlar a dor neuropática e faltam fonoaudiólogos e psicólogos para diversos problemas causados pelas NF.

Enfim, há conquistas alcançadas e novas metas a serem atingidas, em especial a criação de novos centros de atendimento especializado em NF em outras regiões do Brasil.

Apesar de todas as dificuldades econômicas e políticas que estamos passando no momento, precisamos manter a união e continuarmos lutando pelo nosso principal objetivo que é melhorar a vida das pessoas com NF e suas famílias.

Abraço a todxs com esperança.

Lor


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Dá para voltar para casa, guria?

Depois de amanhã a PEC 55, aquela que reduzirá o tamanho do estado social brasileiro, será Lei.

Foi dado mais um passo da liberalização da economia no sentido de serem retiradas as poucas e frágeis rédeas do estado sobre a besta voraz do capitalismo, uma fase da humanidade que está ocorrendo em vários países.

No Brasil, a redução dos investimentos públicos em saúde, educação e previdência, que já são insuficientes e ineficazes, abrirão as portas para as empresas privadas ocuparem estes espaços do mercado e explorarem seu grande potencial de lucros.

A flexibilização das leis trabalhistas, leia-se uberização de todas as profissões, permitirá a desvalorização da mão de obra, o aumento da pressão do exército de desempregados sobre os poucos postos de trabalho, reduzindo salários e aumentando lucros.

A reforma da previdência promoverá uma série de injustiças ao aumentar a idade mínima para homens e mulheres da mesma forma, desconsiderando as diferenças entre a jornada dupla de trabalho das mulheres, a remuneração menor do trabalho das mulheres e a contribuição exclusiva das mulheres para o bem mais precioso da humanidade que é a gestação de um novo ser humano. As diferenças contra as mulheres expropriam o corpo das mulheres e, ainda que elas vivam um pouco mais do que os homens, a sua qualidade de vida nestes anos extra é marcada por mais doenças e sofrimentos resultantes da exploração do seu trabalho ao longo da vida.

Além disso, nas últimas décadas a expectativa de vida aumentou, sim, mas diferentemente para cada classe social: os mais ricos, brancos e sulistas vivem mais, mas os mais pobres, negros e nordestinos não ganharam anos de vida na mesma proporção. Além disso, existem profissões que desgastam mais e outras que desgastam menos a saúde das pessoas. Sim, é um absurdo um professor universitário se aposentar aos 45 anos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas vejam que a maioria dos trabalhadores em minerações jamais atingirá os 65 anos propostos pelo governo pau mandado dos empresários internacionais.

O resultado de tudo isso e de outras medidas que estão sendo tramadas pela quadrilha de fichas limpas num certo lava-jato, já sabemos, será o aumento da concentração de renda, da desigualdade social que desperta os monstros que existem em nós: a violência, o medo do estrangeiro, o fanatismo religioso e político, o tráfico de pessoas e de órgãos, o machismo e a as guerras civis.

Mas depois de amanhã, a PEC será Lei.

Aqueles que resistiram à sua aprovação, contra a imensa máquina de propaganda do empresariado (leia-se TV aberta, grandes jornais, poderes executivo, legislativo e judiciário), ainda estão nas ruas, ocupando universidades e escolas públicas. Continuam levantando suas vozes nas redes sociais, protestando, propondo novas alternativas à PEC 55, como cobrar a dívida dos empresários com a previdência, cobrar a dívida dos grandes sonegadores do imposto de renda, taxar as grandes fortunas, criar o imposto sobre o lucro dos bancos e outras soluções para a crise brasileira, mas que sejam A FAVOR DO POVO.

E agora, que a PEC 55 é Lei, dá para dizer para a juventude: voltem para casa, moçada, que o jogo acabou?

Não se trata de um jogo de futebol, como o governo Temer comemorou, em que um campeonato praticamente não afeta o resultado do campeonato seguinte. Esta votação vencida pelo governo atingirá toda uma geração que sofrerá ainda mais do que a atual com os 20 anos de redução do poder protetor do estado brasileiro contra os abusos do capitalismo.

Usando expressões do futebol, o governo atual não joga para vencer a crise, nem para a torcida chamada opinião pública, mas joga rapidamente para seus patrocinadores ao implementar uma política econômica de longo prazo em benefício do empresariado internacional.

Esta política já começou a destruir o pequeno barracão que vínhamos arduamente construindo desde a Constituição de 1988.

Portanto, gurizada, não há casa para voltar.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Um livro para crianças que ajuda a entender a genética

Alice, minha neta, e eu convidamos você que acompanha este blog para participar da publicação de um livro que criamos juntos e Alice ilustrou.

O livro chama-se “As gêmeas que ficaram diferentes”.

É uma história interessante e divertida na qual as crianças acabam compreendendo melhor como a cultura e a genética se unem no desenvolvimento humano.

É um conhecimento útil para você e todos nós que enfrentamos as neurofibromatoses.

O livro ganhou o selo “Pedagogicamente Responsável” da Editora Educore.

Veja como é simples e seguro participar.

No site da Editora Educore você compra o livro antecipadamente (com cartão de crédito ou boleto). Clique aqui para entrar no site : http://infanciar.juntos.com.vc/pt

Em dois meses (ou antes) quando atingirmos o custo editorial, você receberá em sua casa o livro e a recompensa que escolheu (veja no site as diversas recompensas).

Para cada livro comprado, um outro exemplar será doado a uma escola ou instituição educacional carente. Você estará ajudando estas crianças com a sua participação.

Caso nossa meta não seja atendida, (o que você não vai deixar acontecer, é claro!), você receberá seu dinheiro de volta.

Então, eu e Alice já estamos esperando você!

Obrigado.

Lor

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Blog ocupado - com a maior jornalista do Brasil: Eliane Brum

Apesar da crise que nos abate e entristece, a Associação Mineira de Apoio às Pessoas com Neurofibromatoses conseguiu imprimir mais 1100 exemplares da cartilha “As manchinhas da Mariana”, na sua terceira edição atualizada, com novas informações, incluindo algumas informações sobre NF2 e Schwannomatose. Estas cartilhas são diretamente distribuídas às famílias que não têm acesso à internet.

A versão em PDF está disponível neste blog (aqui ao lado), baixa baixar e imprimir.

Divulgue e faça sugestões e críticas para a próxima edição.

Deixo com vocês mais um texto lúcido e esclarecedor da maior jornalista do Brasil: Eliane Brum.
Denúncia de Facebook



Eliane Brum
26, de Setembro de 2016

Ao apresentar a denúncia contra Luiz Inácio Lula da Silva , o procurador da República Deltan Dallagnol apanhou de (quase) todos os lados, algo bastante raro nestes tempos. Tão raro que merece algum espanto e um tanto de precaução. Em diferentes partes do seu discurso durante a coletiva de imprensa de 14 de setembro , ele chamou Lula de ?comandante máximo? do que definiu como ?propinocracia?, de ?o grande general? do esquema de corrupção e de ?maestro da orquestra criminosa?.Disparou metáforas e abusou dos adjetivos Mas quando efetivamente fez a denúncia, a força-tarefa daLava Jato , em Curitiba, acusou Lula pelos crimes de corrupção e de lavagem de dinheiro. O que não é pouco, mas é bem diferente de ser o chefe de uma organização criminosa. O episódio é pródigo de sentidos sobre o Brasil atual. Um deles é a corrosão da linguagem. O outro é a demanda por crença. Estas duas dimensões se articulam na gênese do atual momento do país.

O procurador Deltan Dallagnol não parecia estar num tribunal de júri, como chegou a ser sugerido em algumas críticas sobre sua atuação, mas em outra arena, a das redes sociais. Ele não parecia preocupado em informar cidadãos, mas em buscar seguidores. Como um candidato a herói nesta época,seu troféu são cliques no botão de ?curtir?

O representante do Ministério Público Federal acusou sem exibir provas, apresentou como verdade o que não era capaz de provar como verdade. Ao descolar-se da realidade, esvaziou as palavras, o que deveria ser denúncia virou grito. Como no cotidiano das redes sociais, repete-se e repete-se algo para que, pela viralização, ganhe status de verdade.
De imediato, veio a reação. O gráfico do powerpoint em que Dallagnol tentava mostrar como tudo convergia para Lula virou meme. E o que viralizou foi uma frase atribuída ao procurador: ?Não temos provas, mas temos convicção?.
Esta é a parte mais interessante dessa produção de conteúdo viral. A frase não foi dita. Ela era também uma criação. Ainda que seja possível interpretar o conjunto da apresentação do procurador desta maneira, há enorme diferença entre uma afirmação literal, entre aspas, e a interpretação ou conclusão a que um outro possa chegar a partir do que foi dito. Se essa distinção não é estabelecida, perde-se o sujeito e perde-se o discurso.

Naquele momento, a disputa se dava numa guerra de verdades fabricadas. Nas redes, a viralização ou a multiplicação dos compartilhamentos é a melhor estratégia para conferir veracidade a algo ou mesmo transformar versão em fato. Ou ainda, é uma forma de criar realidade.

Não estou aqui dizendo que realidade, verdade e fato são a mesma coisa. O que estou sugerindo como hipótese é que a convocação ? ou invocação ? é a mesma tanto na ação ? a denúncia verbal dos procuradores diante das câmeras de TV ? quanto na reação a ela nas redes. Não se pede pensamento, mas adesão pela fé. A verdade torna-se uma questão de crença ? e a realidade se afirma pela quantidade de crentes que a ela aderem. A experiência cognitiva é substituída pelo botão de ?curtir?. Em vez da reflexão, o espasmo.

De um lado e de outro, o que aparece como mais importante é a convicção, não as provas. E uma convicção formada a partir da quantidade de cliques. Esse desejo feroz de crença tem corroído o país de forma insidiosa. E só persiste porque os fatos, para um e outro lado, são inconvenientes. O problema é que mesmo a história recente já mostrou que tentar contornar os fatos, por mais duros que sejam, resulta em fatos ainda piores.

No caso específico da denúncia de Lula, tanto a ação quanto a reação buscavam adesão pela crença. Os fatos importavam pouco. É necessário, porém, fazer uma distinção de responsabilidades. Deltan Dallagnol falava como procurador da República. Servidor público no exercício de suas funções constitucionais. Quando ele acusa sem apresentar provas, a gravidade é de outra ordem. Pela posição que ocupa, sua palavra tem mais potencial para ser decodificada como verdade. Ao falar como procurador, ele não representa a si mesmo, mas a instituição.

Essa dinâmica assumida pela figura que representa a força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba chama atenção para a ?justiça? que ganha rosto, e que ganha rosto na era da internet. Numa analogia com as redes, ao fazer acusações gravíssimas sem lastro nas provas, Dallagnol faz um ?discurso de ódio?. Neste sentido, o procurador não é muito diferente de um dos ?haters? (odiadores) da internet, ao chamar Lula de ?maestro da orquestra criminosa? sem mostrar o que sustenta essa acusação.

Torna-se preciso então olhar para o indivíduo Deltan Dallagnol, este que personifica o que não deveria ser personificado. Num ótimo texto publicado no jornal Valor , a jornalista Maria Cristina Fernandes conta sobre pessoalidades que ajudam a iluminar algumas escolhas do procurador. Uma delas é a sua admiração por um vídeo da plataforma TED em que o músico Derek Sivers ensina, em três minutos, ?como iniciar um movimento?.

Na tela, há um jovem sem camisa que dança freneticamente numa montanha. Em seguida, outra pessoa junta-se a ele, tornando-se o ?primeiro seguidor?. Logo, todos o imitam. Um líder, segundo Sivers, precisa ter a coragem de arriscar-se a ser ridicularizado. Quando ele recebe adesão em número razoável, a situação se inverte e quem passa a se sentir ridículo é aquele que não adere. O mais importante: ?É o seguidor que transforma o solitário em um líder?. Como autor de um vídeo com quase 6 milhões de visualizações, Sivers certamente sabe o que diz.

Deltan Dallagnol incorporou este vídeo em suas palestras sobre as 10 medidas anticorrupção. Exibiu-o em fevereiro deste ano ao falar no evento ?The Global Leadership Summit?, na Primeira Igreja Batista de Curitiba. O procurador disse então à plateia : ?Tenha a coragem para saber ser liderado. Para se levantar e, quando você vê uma causa boa, se juntar ao maluco solitário que está dançando?.
E, alguns minutos mais tarde: ?Lute pelas causas que você ama como você lutaria por um filho com câncer. Eu duvido que você desistisse de um filho doente com câncer por mais que inúmeros médicos buscassem tirar suas esperanças. Você continuaria lutando, você dobraria os joelhos, você buscaria o impossível, porque você ama aquele filho. Assim como você lutaria por esse filho, meu desafio hoje para você é que você lute pelo teu país?.

Em sua pregação anticorrupção, Dallagnol invoca do púlpito a oportunidade de mudar o país. E faz a comparação: ?Talvez você tenha ido pro Paraguai ou pra Miami e tenha lá pensado o seguinte: eu não gastaria isso que estou gastando, mas aqui é tudo mais barato e vou aproveitar porque é uma oportunidade?. Pede então à plateia para ?curtirem? sua página pública, ?em nome de Deltan Dallagnol?, no Facebook: ?Eu não sabia, porque eu era ignorante em Facebook. Mas, quando você curte uma página você passa a ser alimentado pelo que é postado lá?. E encerra com uma pergunta: ?Nós podemos contar com você??. Pede então que aqueles que apoiam ?as 10 medidas? levantem as mãos. Registra a imagem em seu celular. ?Um dois três... sensacional?.

Deltan Dallagnol é um homem que se investe de uma missão e se apresenta no Twitter como ?seguidor de Jesus?. As aparições públicas do procurador demonstram que ele pede adesão pela fé no líder ? ou no ?maluco solitário? que, pela adesão , torna-se líder. Como se viu na apresentação da denúncia contra Lula, em 14 de setembro, ele também parece seguir à risca o ensinamento do guru Derek Sivers de não temer o ridículo.

É neste ponto que vale observar os últimos dias com atenção redobrada. A cobertura da denúncia foi um daqueles momentos em que uma parcela da imprensa fez o seu papel, ao lançar luz sobre pelo menos dois pontos importantes do espetáculo estrelado por Deltan Dallagnol: 1) a diferença entre a acusação verbal, a de chefe de uma organização criminosa, e a denúncia formal, a de corrupção e lavagem de dinheiro; 2) a escassez de provas para sustentar a denúncia. Uma parte da imprensa também fez seu papel ao mostrar que a frase atribuída ao procurador ? ?Não temos provas, mas temos convicção? ? não foi dita por ele.

Mas será que era a esta parcela da população, a que se informa por determinados jornais, que Dallagnol se dirigia ao fazer sua frenética dança na montanha? A apresentação da força-tarefa da Lava Jato foi transmitida por algumas TVs. O vídeo está no YouTube. Quantos milhões não viram apenas isso? O que vira ?verdade? nas redes? O que permanece como ?fato?? Qual é a ?realidade? que efetivamente se impõe?

É razoável supor que Deltan Dallagnol sabia o que fazia ao optar por uma acusação midiática diferente da denúncia formal. Quantos assistiram e assistirão a trechos em vídeo da fala espetaculosa e quantos lerão as 149 páginas da denúncia formal ou as críticas mais densas a ela? É na convicção de seus seguidores ? e não nas provas ? que Dallagnol parece apostar.

É bastante difundida a hipótese de que a fragilidade da denúncia deva ser comemorada pela defesa de Lula. No julgamento, sim. Mas e no justiçamento? Onde se ganha a fé das pessoas, a fé que vira voto, já que é também crença ? e não razão ? que hoje se pede aos eleitores? O impeachment de Dilma Rousseff , claramente sem base legal, mostra bem o que é determinante no resultado da disputa.

O espetáculo comandado pelo maestro Deltan Dallagnol levanta questões importantes. Qual é o impacto dessa atuação ? acusar sem apresentar as provas ? num país no qual ainda há tanta dificuldade de acesso à Justiça para vastas parcelas da população? Qual é o impacto deste exemplo, por parte de um servidor público com tanta expressão, no imaginário de uma sociedade que produz tantos linchamentos?

Essas questões são tudo menos banais. Se a Lava Jato tem que ser reconhecida pelos seus acertos, que são vários, é imperativo que ela responda pelos seus abusos, que também são vários, porque eles têm impacto e muito numa sociedade em que os discursos de ódio têm proliferado. Quando procuradores e juízes fazem justiçamentos em vez de justiça, o Estado de direito está ameaçado.

Há vários tipos de estupidez que costumam acometer figuras lançadas de repente ao centro do palco. Uma delas é a de acreditar na própria lenda. Ou na potência do seu protagonismo. A vaidade costuma fazer muitas vítimas. E há ainda aquela ilusão tão sedutora de se achar mais esperto do que todos os outros no jogo que pretende intervir. Já que a fé tem sido tão invocada por Deltan Dallagnol, talvez o procurador ?seguidor de Jesus? seja jovem demais para lembrar que o diabo sabe mais por ser velho do que por ser diabo. E, assim, olhar mais atentamente para todos os lados antes de se arriscar a pirotecnias. A começar para o lado de quem o elogia e o estimula ao espetáculo.

É fundamental para o país que a Operação Lava Jato continue. A prudência sugere desconfiar de unanimidades onde não costuma haver. Desqualificar a Lava Jato, neste momento, serve para muitos. Lula porque de fato virou réu e vai precisar se defender formalmente na Justiça. Com o agravante de que sua mulher, Marisa Letícia, também virou ré, o que é um golpe bastante duro. Mesmo que Lula não seja condenado na Justiça, porém, ele já foi condenado por parte da opinião pública. Deste ponto de vista, ainda que os acontecimentos dos últimos dias tenham mostrado que outras figuras estratégicas do PT poderão ser alcançadas pelas investigações, são seus oponentes que possivelmente tenham mais a perder neste momento.

Há muitos com medo de que a Lava Jato siga investigando e os transforme em réus. Assim, vale tudo, até se indignar contra os abusos da operação, indignação que não ocorreu em episódios claramente abusivos como o da ?condução coercitiva? de Lula ou o do vazamento dos diálogos de Lula com a então presidente Dilma Rousseff.

Quando até mesmo uma figura com a folha corrida do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), critica a Lava Jato dizendo que é ?preciso acabar com o exibicionismo?, é necessário ouvir a sirene. Este é o momento escolhido por diferentes personagens para enfraquecer a Lava Jato, com o objetivo de impedir que a operação prossiga em direção a outras lideranças e outros partidos e outros governos, no passado e no presente, para muito além do PT.

Há ainda a hipótese de que a Lava Jato tivesse desde sempre orientada para uma investigação seletiva. E não interesse nem a seus agentes que ela prossiga para além do ?grande general?. O espetáculo constrangedor da denúncia de Lula reforçou essa tese. Cabe aos policiais federais, procuradores e juízes mostrar que não têm partido nem ideologia na hora de investigar. Neste sentido, os próximos capítulos são decisivos para que a Lava Jato mostre a que veio.

O xadrez em torno da Lava Jato é intrincado. É preciso entender se, neste jogo, Deltan Dallagnol é bispo ou apenas um peão que acredita ser bispo. O que se pode afirmar é que, para a maioria dos brasileiros, é crucial que a Lava Jato continue avançando e de fato passe a limpo a relação entre poder público e empreiteiras, para muito além dos governos de Lula e de Dilma Rousseff. Essa relação é mais antiga do que a construção literal de Brasília. E define muito do país. Para isso, é preciso que policiais, procuradores e juízes sejam policiais, procuradores e juízes ? e não justiceiros nem heróis de Facebook.

Assim, antes de ?curtir?, é importante resgatar a experiência do pensamento, esta que nos diferenciou dos outros grandes primatas. Espantar-se, duvidar, questionar, checar e, principalmente, diferenciar o que é fato do que é versão antes de sair clicando e gritando. E tudo isso sem medo de enfrentar as contradições, resistindo mesmo que doa à tentação de contornar as verdades mais duras. Há muitos líderes ou aspirantes a líder dançando freneticamente na montanha para atrair seguidores.

Não siga. Pense.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Blog ocupado - Sobre as manifestações do dia 4 e dia 13 de dezembro

Esclarecimento das frentes populares: 


“As Frentes não apoiam e nem participarão da manifestação convocada pelo Vem Pra Rua, um grupo de direita, golpista, que utiliza de forma demagógica e oportunista o suposto combate à corrupção. Financiado por organizações e partidos conservadores e instituições estrangeiras que objetivam impor ao Brasil o receituário neoliberal, eles são os mesmos que foram às ruas para defender o golpe, apoiar Eduardo Cunha e a perseguição política seletiva do Juiz Sérgio Moro, agente do imperialismo norte americano e das forças reacionárias internas.

No dia 04/12 estarão nas ruas aqueles que defendem que juízes e procuradores tenham plena liberdade para perseguirem quem desejar - seus alvos são predominantemente a esquerda e os movimentos sociais -, e que fiquem impunes quando comentem crimes.

Não compactuamos com a tese de quem votou a favor da emenda do abuso de autoridade seja caracterizado como a favor da corrupção e muito menos de que quem votou contra seja paladino da moralidade.

O Brasil não pode ser chantageado por uma casta de privilegiados que recebe salários acima do teto estabelecido pela constituição, para impor ao povo um poder não referendado nas urnas e com sinais claros de elementos do fascismo.

Os mesmos grupos que convocam a citada manifestação comemoraram a aprovação da PEC do fim do mundo e a violenta repressão aos movimentos sociais em Brasília aos estudantes e trabalhadores que lá protestavam contra o golpe à Constituição de 1988 no dia 29/11.

Portanto, é necessário esclarecer que diante de certa confusão gerada a partir de boatos nas redes sociais, que os trabalhadores, a juventude e os movimentos sociais em geral não irão se misturar com os patrocinadores do golpe de Temer e Cunha - os mesmos que estão na linha de frente da campanha pelas reformas da previdência e trabalhista e tantos outros ataques às conquistas do povo Brasileiro. Nosso lado é o da democracia e por ampliação de direitos.

A Frente Povo Sem Medo ocupará as ruas no DIA 13/12 com o lema: NÃO À PEC 55 E À REPRESSÃO AOS MOVIMENTOS SOCIAIS.

A proposta é persistir na luta para denunciar e derrotar a PEC da maldade e ao mesmo tempo protestar contra a violência que se abate sobre os manifestantes que estão nas ruas contra o golpista Temer e sua quadrilha.”

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Blog ocupado - O sequestro do tempo

A jovem ficou de pé e disse: “Nesta madrugada um grupo de terroristas do Estado Mínimo e atiradores da elite, armados de microfones e mídias subvencionadas, tomou de assalto a constituição e sequestrou nosso futuro. A partir de hoje, eles pretendem nos prender ao presente nesta imensa desigualdade social e cultivar em nossas mentes a mesmice cotidiana de vidas sem desejo de mudança. Se olharem agora seus celulares o tempo já não passa mais, nenhuma notícia oficial mostrará o momento real em que vivemos, nada encontrarão além de fatos postados há horas e as ideias e projetos coletivos serão transformados em lixo e nossas intenções serão esvaziadas de história para se tornarem lendas urbanas. De nada adiantará procurarmos um calendário, porque todos eles foram confiscados por medida de segurança nacional, já que nada poderemos planejar para amanhã, para depois de amanhã ou para o próximo ano. Os sequestradores do tempo se aproveitaram da nossa fragilidade e em nome do presente imutável pela ordem do progresso revogaram algumas duras quase conquistas do passado, como a liberdade de amar, a igualdade feminina, o direito ao corpo e o fim da escravidão. Os agentes financeiros que invadiram nossa vida e ampliaram seu poder nesta madrugada, já anunciaram violenta repressão a todos que ousarem respirar em protesto e os adolescentes invasores de escolas públicas seremos presos e condenados à TV em solitárias e sofás domésticos até o momento mais adequado ao mercado para sermos transformados em cartões de créditos e produtos eletrônicos. Então, temos que escolher: aqueles a quem o medo faz aceitarem o congelamento do tempo pelos piratas da legalidade podem se retirar pacificamente desta ocupação e entregar seus sonhos na portaria. Quem permanecer precisará manter os olhos levantados para o horizonte, porque além daqueles muros o amanhã continuará existindo, a história não acabou. Nada temos a perder, a não ser a nossa esperança. ” Alguns se abraçaram em despedida. Outros começaram a caminhar em direção ao paredão construído com as pedras da lei, as tribunas de parlamentares, as barras de tribunais, os orçamentos de ministérios, as bombas de gás lacrimogênio, os milhares de policiais, seus brutos cassetetes e as duras balas de borracha. Apenas alguns raios de sol atravessam por frestas mínimas a fria barreira organizada por ternos, togas e uniformes militares, mas são suficientes para que todos saibam a direção da luz.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Blog ocupado – Outro mito do nosso sistema educacional?

Dizem que os estudantes do ensino superior nas instituições públicas são mais ricos do que nas instituições privadas. Será verdade?

“A segregação econômica ocorre ao longo do processo educacional. No ensino superior, a elitização se manifesta pelo curso, não pela instituição (faculdade ou universidade). Por exemplo, as informações socioeconômicas obtidas nos Exames Nacionais de Desempenho de Estudantes mostram que estudantes de Engenharia e Medicina têm renda familiar cerca de 3 vezes superior à dos estudantes de Pedagogia. Entretanto, em qualquer um destes três cursos a renda familiar é MAIOR entre os estudantes das instituições privadas do que das públicas”.

Este e outros mitos da educação brasileira podem ser lindos no excelente artigo de Lighia B. Horodynski-Matsushigue, Marcelo T. Yamashita e Otávio Helene, professores da USP e da UNESP, um artigo interessantíssimo construído com dados do próprio Ministério da Educação e da UNESCO, e que foi publicado na edição atual do Le Monde Diplomatique Brasil, que está nas bancas.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Blog ocupado - Mitos da educação

“Entre os três países das Américas, apenas o Chile tem uma proporção de alunos em instituições privadas (de ensino superior) do que o Brasil.

A taxa de privatização média no mundo é metade da nossa.

Nos Estados Unidos, a situação é exatamente a inversa da brasileira: enquanto aqui temos mais do que 70% das matrículas no ensino privado, lá o setor público detém mais de 70% das matrículas.”

Segundo Lighia B. Horodynski-Matsushigue, Marcelo T. Yamashita e Otávio Helene, professores da USP e da UNESP, em artigo interessantíssimo construído com dados do próprio Ministério da Educação e da UNESCO, e que foi publicado na edição atual do Le Monde Diplomatique Brasil, que está nas bancas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Blog ocupado – Notícia 8 - Professores federais de Minas Gerais continuam contra a PEC 55

Veja abaixo o comunicado da Associação dos Professores

Os professores da UFMG reunidos ontem (16/11) em assembleia convocada pelo Sindicato dos Professores de Universidades Federais de Belo Horizonte, Montes Claros e Outro Branco – Apubh, no auditório da reitoria da UFMG, ratificaram a decisão de deflagrar a greve na instituição por tempo determinado e condicionado à tramitação da PEC 55/16 no Senado. A decisão foi tomada pela maioria dos 358 presentes, com 17 votos contrários e 11 abstenções.

A assembleia foi iniciada com a leitura da comunicação de greve entregue à reitoria da UFMG na tarde do dia 11 de novembro cumprindo os requisitos legais para deflagração do movimento. Em seguida, os docentes analisaram a conjuntura da greve no país e na UFMG e traçaram um panorama do primeiro dia de paralisação.

Durante as discussões os docentes destacaram a importância do movimento grevista neste momento, visto que a PEC 55/16 é o carro-chefe de um pacote de reformas do governo federal e que terão consequências gravíssimas para a saúde, educação e seguridade social, de modo geral. Para os docentes, o momento é da UFMG lutar contra a PEC em defesa da educação, saúde, seguridade social e pela manutenção dos direitos sociais já conquistados com a Constituição de 1988.

Os docentes ainda deliberaram pelo encaminhamento de uma moção ao Conselho Universitário para que este suspenda o calendário acadêmico da instituição, mas com a manutenção dos serviços essenciais. Também será encaminhada uma solicitação à Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior - Andifes para que manifeste apoio à luta contra a PEC.

Na próxima segunda-feira, 21/11 haverá uma nova assembleia para análise da greve nas unidades acadêmicas. Esta assembleia faz parte do calendário de atividades do movimento que ainda prevê ações para esclarecimento da população sobre os motivos da greve e informações sobre a PEC 55/16; promoção de aulas para a comunidade universitária sobre a PEC; panfletagem e atividades artísticas alusivas à pauta da greve e para conscientização da população sobre os efeitos da PEC.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Blog ocupado – Notícia 7 – Senado não respeitará a consulta popular sobre a PEC decidida pelos deputados?

Veja a contagem de votos hoje contra e a favor da PEC 55 clique AQUI .

Observe que cada uma das pessoas que votou até agora teve o trabalho de se cadastrar primeiro, com nome completo, endereço e e-mail para depois poder votar. 

E o sistema impede que a mesma pessoa vote mais de uma vez.

Assim, considero um desrespeito à opinião pública e à própria votação da Câmara dos Deputados que indicou a necessidade de uma consulta popular para a aprovação ou não da PEC 55.

As ocupações continuam nas escolas e universidades e outros setores sociais estão se mobilizando contra esta medida que aumentará a brutal desigualdade de renda que já existe em nosso país e reduzirá a qualidade de vida do povo brasileiro.

Vá lá e vote, dê sua opinião, contra ou a favor e vamos lutar para que ela seja respeitada.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Blog Ocupado – Notícia 5 – Quem entende de economia, como o CONSELHO FEDERAL DE ECONOMIA, se posiciona contra a PEC 55!!!

"O Conselho Federal de Economia, entidade representativa dos 230 mil economistas brasileiros, posiciona-se francamente contra a PEC 241, posicionamento adotado no 25º Simpósio Nacional dos Conselhos de Economia, realizado de 31 de agosto a 2 de setembro em Natal (RN) e que reuniu cerca de 200 economistas representando os 26 Conselhos Regionais de Economia.


Somos os primeiros a defender que o Brasil precisa retomar o quanto antes o crescimento econômico, mas não a qualquer preço, e sim preservando a inclusão social e avançando na distribuição social e espacial da renda.

A sociedade brasileira fez uma opção em 1988, inserindo na Constituição um sistema de seguridade social e de educação pública que, naturalmente, demanda vultosos recursos. Mas é este sistema que hoje, mesmo com forte queda do PIB e do nível de emprego, impede que tenhamos hordas de flagelados, saques a supermercados e quebra-quebras nas periferias das metrópoles, como ocorreu em passado recente.

Não obstante os avanços nas últimas décadas, o Brasil persiste como um dos países de maior desigualdade social. Um dos principais mecanismos de concentração da renda e da riqueza, senão o principal, é nosso modelo tributário, altamente regressivo, economicamente irracional e socialmente injusto.

No atual momento de crise fiscal, não há como atender às crescentes demandas sociais sem mexer em nosso modelo tributário, no qual 72% da arrecadação de tributos se dão sobre o consumo (56%) e sobre a renda do trabalho (16%), ficando a tributação sobre a renda do capital e a riqueza com apenas 28%, na contramão do restante do mundo. Na média dos países da OCDE, por exemplo, a tributação sobre a renda do capital representa 67% do total dos tributos arrecadados, restando apenas 33% sobre consumo e renda do trabalho.

Contudo, em lugar deste debate, adota-se o caminho mais fácil, jogando o ônus nos ombros dos mais pobres. Dessa forma, o governo traça um falso diagnóstico, identificando uma suposta e inexistente gastança do setor público, em particular em relação às despesas com saúde, educação, previdência e assistência social, responsabilizando-as pelo aumento do déficit público, omitindo-se as efetivas razões, que são os gastos com juros da dívida pública (responsáveis por 80% do déficit nominal), as excessivas renúncias fiscais, o baixo nível de combate à sonegação fiscal, a frustração da receita e o elevado grau de corrupção.

Para buscar o reequilíbrio das contas públicas, propõe um conjunto de ações cujos efeitos negativos recairão sobre a população mais vulnerável, sendo a PEC 241 a principal delas, propondo o congelamento em valores reais das despesas, incluindo os recursos destinados à saúde e à educação, configurando-se em medida inaceitável, tendo em vista que o atual volume de recursos para essas áreas já é insuficiente para ofertar à população um serviço de melhor qualidade e que atenda de forma plena a demanda.

Segundo o Fórum Nacional dos Secretários Estaduais de Saúde, estima-se que a medida, caso implementada, reduzirá em R$ 650 bilhões os recursos do setor nos próximos 20 anos, recursos esses já insuficientes para atender uma população que envelhece rapidamente, demandando investimentos crescentes."


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Blog Ocupado - Notícia 4: Existem alternativas à PEC 55?


Vejamos primeiro ao lado o que é a DÍVIDA PÚBLICA brasileira: a maior parte da “nossa” dívida é feita de pagamento de juros aos bancos.

Para “resolver” esta dívida o governo Temer enviou ao Congresso uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC): a PEC 55, antiga PEC 241, que agora tramita no Senado Federal.

Centenas de ocupações por todo país questionam a medida. Milhares de jovens estão na luta para expressar que não aceitam o futuro que o Governo Temer pretende impor para o Brasil.

Mas todos sabem que a crise é grande. Muitos trabalhadores se perguntam: afinal, qual é a saída? Existe mesmo outro caminho?

A PEC 241 ou PEC 55 é uma escolha política. Longe de ser “a única saída”, o congelamento do orçamento por 20 anos é uma medida que beneficia os de cima contra os de baixo. Ganham os banqueiros, ganham as grandes empresas, perdem os trabalhadores, o povo pobre, a juventude; a grande maioria da população.

A lógica da PEC 55 é simples: quem tem mais paga menos, quem tem menos paga mais.

Abaixo são apresentadas três propostas concretas que vão no sentido oposto.

Nosso objetivo não é neste pequeno texto apresentar um programa global para a crise brasileira, queremos apenas oferecer para todo jovem e todo trabalhador três argumentos simples para passar adiante:

1) Taxar as grandes fortunas

No Brasil temos uma tributação muito pesada sobre o consumo.

Metade da arrecadação tributária no Brasil sai do bolso de quem ganha até três salários mínimos. Além disso, o Imposto de Renda é extremamente injusto. Uma parcela dos trabalhadores que tem emprego fixo e alguma estabilidade (uma parte da chamada classe média) paga valores altíssimos de Imposto de Renda.

Mas no Brasil não existe Imposto sobre as Grandes Fortunas e, pasmem, não existe imposto sobre o lucro. Se fosse aplicado o Imposto sobre as Grande Fortunas, que obviamente não afetaria nenhum trabalhador, estima-se que ele renderia R$ 100 bilhões por ano para os cofres públicos. Já a inclusão dos “dividendos” no imposto de renda, ou seja, se os empresários tivessem que pagar impostos sobre o que recebem de lucros de suas empresas geraria uma receita extra entre R$ 30 bilhões e R$ 63 bilhões ao ano.

2) Cobrar a dívida dos grandes devedores da União

A dívida ativa da União é o conjunto de débitos que pessoas físicas ou jurídicas contraíram com a União. Atualmente esta dívida é calculada em 1,58 trilhão. Pode parecer que neste montante estão milhares de pequenos devedores, ou muitos colegas que não tiveram dinheiro para pagar o imposto de renda ou foram multados pelo fisco.

Não, não é isso que ocorre.

O Ministério da Fazenda divulgou em outubro de 2015 a lista das 500 empresas que mais devem à União. Sabe quem está no topo desta lista? A Vale que deve quase 42 bilhões aos cofres públicos.

Portanto uma medida simples para que os capitalistas paguem a conta da crise que eles criaram seria cobrar a dívida das empresas!

3) Suspender o pagamento e fazer uma auditoria da dívida

No ponto anterior vimos que a União não cobra os seus devedores. Quer dizer, cobra as pessoas físicas que devem pequenos valores. Contra os de baixo o sistema funciona muito bem. Cancelam o CPF, bloqueiam os valores na conta corrente, etc., mas as grandes empresas devedoras continuam funcionando normalmente.

A questão é que, apesar de não cobrar dos grandes devedores, o Estado Brasileiro paga regularmente as suas dívidas e remunera os seus credores com os juros mais altos do mundo. Mas não é certo pagar o que se deve?

Neste caso não. Esta dívida é totalmente ilegítima. A Constituição de 1988 (esta, mesma que eles estão mudando agora) estabeleceu no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias que o Estado deveria fazer uma auditoria da dívida. Esta auditoria nunca foi feita. Esta norma constitucional foi retirada durante o governo FHC. Os 13 anos de mandato do PT não se propuseram a cumprir esta medida básica que mudaria a história do Brasil.

Hoje o país gasta mais da metade do seu orçamento para pagar uma dívida ilegítima, oferece ao mercado financeiro juros altíssimos e justamente por isso, apesar de sempre pagarmos a dívida não para de crescer.

Texto adaptado de ESQUERDA ONLINE http://esquerdaonline.com.br/2016/11/06/tres-medidas-alternativas-a-pec-241-pec-55/


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Blog ocupado: notícia 2: Parecer no bolso do Renan!


Atenção ocupantes CONSTITUCIONAIS das escolas e universidades!
Um estudo da área técnica do Senado Federal concluiu que a PEC 55 (241 na Câmara dos Deputados), que impõe um teto dos gastos públicos do governo federal pelos próximos 20 anos, é “INCONSTITUCIONAL".

O artigo técnico é produzido pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa, assinado por Ronaldo Jorge Araujo Vieira Junior, consultor legislativo do Senado na área do direito constitucional, administrativo, eleitoral e partidário, e está disponível no site do Senado.

Quem quiser ver o texto completo e oficial do Senado BASTA CLICAR AQUI.

A Comunicação do Senado, porém, ao contrário do que sempre faz em outros casos, decidiu não divulgar o estudo por meio de reportagem na Agência Senado, por que será????

O estudo concluiu que "a PEC nº 55, de 2016, tende a abolir as cláusulas pétreas previstas nos incisos II, III e IV do § 4º do art. 60 da Constituição Federal, que se referem, respectivamente, ao voto direto, secreto, universal e periódico; à separação de Poderes e aos direitos e garantias individuais, razão pela qual deve ter sua tramitação interrompida no âmbito das Casas do Congresso Nacional".

Então, o que vai acontecer?

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Quando eu crescer, estudarei numa escola pública e serei capaz de escrever como a Eliane Brum neste texto abaixo


Eliane Brum no El País - Clicar aqui

BLOG OCUPADO - Notícia 1 - Manifesto de Professores da UFMG


Manifesto dos professores de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG sobre a ocupação estudantil e o quadro nacional.


Nós, professores e professoras do Departamento de História da UFMG abaixo assinados, nos reunimos no dia 1 de novembro de 2016 para discutir a ocupação estudantil na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e em várias outras unidades da UFMG, bem como para debater outros aspectos da preocupante situação nacional. Por unanimidade decidimos divulgar este manifesto.

Em primeiro lugar, empenhamos total apoio à iniciativa dos estudantes de ocupar prédios da UFMG como forma de protesto contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55, que agora se encontra no Senado, após tramitar na Câmara dos Deputados como PEC 241.

Consideramos que as implicações graves e nefastas da PEC 55 justificam ações de protesto agudas. É preciso chamar a atenção da sociedade para o que está em disputa. O governo alega a intenção de equilibrar o orçamento estatal com um novo regime fiscal, mas a medida provocará, na verdade, a destruição dos serviços públicos, especialmente de educação e saúde.

Desde o início de 2015, os recursos para as universidades públicas já vinham sendo contingenciados, porém, com a ascensão de Michel Temer à Presidência, os cortes foram elevados a uma escala sem precedentes. Problema similar afeta as escolas federais de ensino médio. Não há mais o que cortar, salvo se a intenção fosse a de destruir a educação pública federal de níveis médio e superior com vistas a colocar em prática um projeto de privatização.

Congelando os gastos públicos por 20 anos, sem levar em conta o inevitável incremento populacional e o provável crescimento do PIB, a PEC 55 não trará necessariamente o controle das contas públicas. Certamente, porém, provocará uma redução dramática dos recursos disponíveis para investimentos sociais.

Em lugar de procurar alternativas socialmente mais justas, como reduzir os juros, que oneram a dívida pública e consomem centenas de bilhões de reais do orçamento federal, ou criar impostos, que atinjam também os grandes empresários e as grandes fortunas – e não apenas os assalariados –, a escolha do Governo Federal enfraquecerá os serviços públicos.

Preocupa-nos também o progressivo desmantelamento do sistema de ciência e tecnologia. O atual governo desmontou o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e está transformando o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico(CNPq) em repartição pública secundária, além de impor-lhe uma diminuição drástica de verbas. Já se anunciam cortes profundos no número de bolsas de produtividade e de bolsas de iniciação científica do CNPq para o próximo ano, sem razões de mérito técnico-científico para tanto.

Décadas de investimentos e esforços científicos coletivos podem ser destruídos em poucos meses, tanto mais se a PEC 55 for aprovada. Em relação a essas duas atividades centrais da vida universitária, a educação superior e a pesquisa científica, inúmeras críticas circulam na sociedade, muitas vezes por falta de informações sobre a realidade universitária no Brasil e no mundo. Na comparação com sistemas universitários de outros países, podemos dizer que produzimos muito e fazemos bom uso dos recursos públicos.

O Brasil possui o melhor sistema de pós-graduação da América Latina, que por isso mesmo tem atraído estudantes e professores de vários países, e nossas universidades públicas formam milhares de profissionais todos os anos, com a geração de conhecimento que beneficia o sistema produtivo e dá corpo a programas sociais. As escolas federais de ensino médio, ademais, destacam-se como de excelente qualidade, em todos os mecanismos de avaliação.

Certamente há problemas a enfrentar e o desempenho das universidades e instituições de pesquisa pode ser aprimorado. Porém, não será cancelando os investimentos públicos em educação e ciência, além da saúde, que o Brasil irá encontrar boas saídas. Bem ao contrário, o futuro pertencerá aos países que tiverem capacidade de produzir conhecimento, para gerar riquezas e também para refletir com inteligência sobre o seu uso equilibrado.

Manifestamos preocupação, também, com a Medida Provisória nº 746/2016, que promove alterações no Ensino Médio; com a proposta do Programa Escola Sem partido; e com os episódios de violência que têm acontecido em algumas escolas públicas do ensino básico, igualmente ocupadas por estudantes, em que autoridades policiais têm abusado da força e desrespeitado direitos individuais, tendo o mesmo efeito a atuação de determinados movimentos que, frequentemente, agem como milícias.

Estaremos atentos para que isso não ocorra nos espaços da UFMG, convictos de que as disputas políticas devem ser travadas nos limites do respeito às diferenças e às garantias legais, características inerentes às verdadeiras democracias.

Professores presentes à reunião de 01 de novembro de 2016, signatários da nota:

Adriana Romeiro

Adriane Aparecida Vidal Costa

Alexandre Almeida Marcussi

Ana Carolina Vimieiro Gomes

Ana Paula Sampaio Caldeira

André Luis Pereira Miatello

Betânia Gonçalves Figueiredo

Douglas Attila Marcelino

Ely Bergo de Carvalho

Heloísa Maria Murgel Starling

José Antônio Dabdab Trabulsi

José Newton Coelho Meneses

Luiz Carlos Villalta

Luiz Duarte Haele Arnaut

Magno Moraes Melo

Mariana Silveira Moraes

Miriam Hermeto de Sá Motta

Priscila Carlos Brandão

Regina Helena Alves da Silva

Regina Horta Duarte

Rodrigo Patto Sá Motta

Professores que se tornaram signatários da nota após a reunião:

Adalgisa Arantes Campos

Cristina Isabel Campolina de Sá

Eduardo França Paiva

João Pinto Furtado

Kátia Gerab Baggio

Mauro Lúcio Leitão Condé

Rafael Scopacasa

Tarcísio Rodrigues Botelho

Vanicléia Silva Santos



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

ESTE BLOG TAMBÉM ESTÁ OCUPADO!

Este blog tem divulgado informações científicas sobre as neurofibromatoses em linguagem compreensível para milhares de famílias que o acessam em busca de apoio para o enfrentamento cotidiano destas doenças genéticas raras.

Somente é possível oferecer estas informações porque sou médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, onde sou professor há mais de 40 anos. Além disso, o Hospital das Clínicas desta mesma Universidade acolheu nosso Centro de Referência em Neurofibromatoses, onde atendemos milhares de pessoas de todo o Brasil pelo Sistema Único de Saúde.

Esta mesma Universidade e o Sistema Único de Saúde agora se encontram ameaçados pela PEC 241 do Governo Temer, que limita de forma absurda os investimentos sociais por 20 ANOS!

Se a Universidade Pública Brasileira e o Sistema Único de Saúde forem sucateados em benefício das empresas privadas de ensino e de medicina, nosso Centro de Referência em Neurofibromatoses desaparecerá com ela.

Portanto, em defesa da Universidade, do SUS e do Centro de Referência em Neurofibromatoses me uno às pessoas que estão protestando contra a PEC 241.

Em solidariedade aos milhares de estudantes e professores que estão ocupando as escolas e universidades pelo Brasil afora, a partir de hoje este blog oferecerá apenas informações sobre os protestos contra a PEC 241.

Belo Horizonte, 2 de novembro de 2016

Dr. Lor

domingo, 30 de outubro de 2016

Tema 281 - “É preciso uma tribo inteira para cuidar de uma criança”


Representei a Associação Mineira de Apoio às Pessoas com Neurofibromatoses (AMANF) no II Congresso Ibero-Americano de Doenças Raras em Brasília, onde realizei uma palestra sobre a rede humana necessária para o cuidado das pessoas com neurofibromatoses (ver aqui o resumo da palestra AQUI).

Primeiramente, quero parabenizar a equipe da Associação Maria Vitória de Doenças Raras (AMAVI) sob a liderança da sua presidente Lauda Santos, pelo excelente trabalho de programação, pela dedicação à causa e pela hospitalidade.

Acompanhei muitas das palestras e mesas redondas, que me permitiram aprendizados diversos sobre vários assuntos. Desde informações sobre as políticas públicas do Ministério da Saúde até os projetos empresariais para as doenças raras, além de informações sobre doenças raras que eu desconhecia completamente.

Entre minhas impressões, notei que uma das frases mais repetidas em todos os eventos sobre doenças raras é aquela que diz que, segundo as Organização Mundial de Saúde, já teriam sido identificadas cerca de 5 a 8 mil doenças raras e que cerca de 3 a 6% da população mundial seria afetada por doenças raras.

Parece-me que precisamos melhorar a precisão estatística desta informação, porque entre 5 e 8 mil doenças existe uma margem de erro de 60% e entre 3 e 6% de pessoas afetadas existe uma variação de 100%. Ou seja, esta imprecisão nos dados sobre as doenças raras enfraquece os argumentos dos defensores das pessoas afetadas, por exemplo, numa discussão de políticas públicas destinadas a elas. Por outro lado, temos que procurar saber se estes números têm sido inflacionados por interesses comerciais.

Assim, uma de nossas tarefas importantes para o futuro é dimensionarmos de forma realista o verdadeiro número de doenças raras e sua incidência na população.

Outra impressão que tive no Congresso foi a dominância dos temas discutidos em função dos medicamentos para algumas doenças raras. As palestras mais concorridas e com maior carga emocional envolvida foram aquelas que abordaram o fornecimento de alguns medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a liberação de medicamentos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (AVISA) e os processos judiciais que as famílias têm realizado para obter determinados medicamentos (judicialização).

No entanto, sabemos que a grande maioria das doenças raras não possui ainda qualquer medicamento cientificamente comprovado e que deva ser ministrado às pessoas afetadas.

Esta imensa maioria de doenças raras precisa de outros recursos, especialmente a formação de equipes multidisciplinares que sejam capazes de fornecer o diagnóstico correto, aconselhamento genético, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, enfermagem, enfermagem, apoio psicológico e psicopedagógico.

Ou seja, a maioria das doenças raras necessita de uma tribo inteira de cuidadores para que a qualidade de vida das pessoas afetadas seja melhorada, mesmo que não haja cura para a doença. 


No entanto, a discussão sobre medicamentos abafa a criação desta rede pública de suporte às pessoas com doenças raras. Uma das consequências desta prioridade seletiva sobre medicamentos é que a estrutura multidisciplinar dos Centros de Referência em Doenças Raras que deveriam existir a partir da Portaria 199 do Ministério da Saúde de 2014 praticamente não saíram do papel.

E por que apenas algumas doenças raras recebem mais atenção do que a maioria das outras? Porque algumas delas já possuem medicamentos fabricados por laboratórios farmacêuticos que nos percebem apenas como um tipo de mercado de consumidores.

Esta postura empresarial em busca do lucro ficou explícita numa das palestras, a realizada pelo Dr. Fernando Ferrer da Multinational Partnerships, que terminou sua fala convidando os empresários multinacionais da indústria farmacêutica a investirem na América Latina, pois aqui seria uma excelente oportunidade de negócios no campo das doenças raras.

Creio que estas divergências nas doenças raras se encaixam na luta política entre o modelo de saúde pública (universal, para todos, e portanto estatal) e o outro de saúde privada (apenas para os que podem pagar).

Esta é a grande luta política sobre a saúde que ocorre neste momento em todo o mundo e, em particular, no Brasil, onde o governo Temer quer limitar os investimentos públicos em benefício da sociedade para maior lucro dos bancos e empresas multinacionais.