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terça-feira, 19 de setembro de 2017

PIC NIC da AMANF no Parque Mangabeiras

Neste último domingo (17 de setembro de 2017) um grupo de pessoas, dentre aquelas que participam ativamente da Associação Mineira de Apoio às Pessoas com Neurofibromatoses (AMANF), realizaram um encontro no Parque Mangabeiras em Belo Horizonte para curtirem o belo dia de sol e temperatura agradável numa paisagem maravilhosa.

Além do lanche e das brincadeiras, as companheiras e companheiros que participaram puderam aumentar sua amizade e sua solidariedade, que é a energia que nos move para continuarmos nossa luta em busca de melhores dias para as pessoas com neurofibromatoses.

A alegria de viver nos faz perceber que somos maiores do que nossa doença.




segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Notícia: Fundação norte-americana lança nova cartilha para NF1

A Children’s Tumor Foundation (CTF), a principal organização norte-americana envolvida na divulgação de informações sobre as neurofibromatoses, lançou em setembro de 2017 uma nova cartilha chamada “Como ajudar crianças com dificuldades de aprendizado associadas com a Neurofibromatose do tipo 1”.

Quem desejar ver a cartilha completa em inglês, basta clicar AQUI .

A CTF foi fundada em 1978 e é uma instituição sem fins lucrativos, apesar de receber o patrocínio de indústrias de medicamentos, dedicada a encontrar tratamentos para as neurofibromatoses. A CTF se propõe a encontrar a “cura” para as neurofibromatoses através da promoção de pesquisas e divulgação científica.

Na cartilha encontramos orientações para o diagnóstico das principais dificuldades de aprendizado e comportamentais nas crianças e adolescentes com NF1.

Em seguida, há sugestões de atividades e programas que podem auxiliar os pais lidarem melhor com as dificuldades de suas crianças.

Uma das orientações da cartilha que chamaram a minha atenção foi:

“A maior recompensa para uma criança é o tempo que seus pais dedicam a ela”.

Esta nova cartilha é muito interessante e seria uma bela contribuição para nossa comunidade brasileira se alguém se dispusesse a traduzir e adaptar o seu conteúdo para o português.



quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Tema 323 – “Peeling” para o tratamento dos neurofibromas na face?

“Boa noite, me chamo JM., tenho 41 anos, minha mãe e eu temos neurofibromatose e também, infelizmente, meu filho caçula de 15 anos herdou de mim. Sou professora no ensino fundamental e as vezes as crianças questionam a razão dos pequenos caroços em meu rosto. Fico muito constrangida e respondo de maneira bem simples. Ao consultar minha dermatologista, ela me disse que havia a possibilidade de matar a raiz com o uso de um “peeling” de ácido de fenol, mas este é feito somente por cirurgião plástico. Então entrei em contato com a equipe do Dr. X e quase morri ao saber o valor inicial do tratamento que é a partir de R$15.000,00. Imagina! Jamais teria condições de pagar tal valor. Me ajude por favor, não quero que meu filho passe pelo mesmo constrangimento que eu. Se for o caso envio fotos da minha mãe, minha e do meu filho. Obrigada”. JM, de Porto Alegre, RGS.

Cara JM, obrigado pelo seu contato. Para sua maior segurança, pedi à médica Luciana Baptista Pereira, que é professora de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, para responder à sua pergunta e veja abaixo o que ela disse.

“ O chamado “peeling” de fenol é feito em meio hospitalar, com anestesia geral.

Temos que contar com a presença de um anestesista do lado (a substância pode causar toxicidade renal, insuficiência renal aguda, fibrilação ventricular e outras complicações).

Conheço dermatologistas que fazem este “peeling” na face para o tratamento da pele causado pela exposição solar crônica durante a vida. O resultado final é muito bom, mas acho o risco alto.

No entanto, nunca vi nenhuma publicação científica sobre este tipo de tratamento para os neurofibromas. De qualquer forma, sendo neurofibromas, sabemos que a lesão pode voltar a crescer com qualquer tipo de retirada (mesmo com excisão cirúrgica).

Penso que o peeling de fenol pode deixar cicatrizes e o resultado da retirada de muitos neurofibromas não ficaria bom do ponto de vista estético.

E com certeza, nenhum médico pode prometer que a retirada será definitiva, sem recidivas. ”



Agradeço a Dra. Luciana pela resposta e imagino que ela será útil para muitas pessoas com NF1.




domingo, 10 de setembro de 2017

Tema 322 – Como tratar os meningiomas na NF2?

“Olá. Tenho NF2 e vários meningiomas no cérebro. Qual o melhor tratamento? ” GC, de São Luís, MA.

Obrigado pela sua pergunta, que pode ser útil a muitas pessoas.

Atualmente nossa orientação no Centro de Referência em Neurofibromatoses do Hospital das Clínicas da UFMG para o tratamento dos meningiomas nas pessoas com NF2 segue o Consenso de 2012 (ver artigo completo em inglês AQUI).

Preciso chamar a atenção para o fato de que a conduta a ser escolhida é sempre difícil e deve ser ponderada caso a caso. Assim, o que adaptei do consenso e apresento abaixo deve servir apenas como orientação geral.

Cuidado clínico padrão para pessoas com meningiomas.

O meningioma é o tumor primário do cérebro mais comum em todo o mundo. É um tumor que nasce nas meninges (as membranas que cobre o cérebro e a medula espinhal) e pode acontecer em qualquer parte do sistema nervoso central.

Geralmente os meningiomas são benignos e descobertos por acaso durante um exame para esclarecer outros problemas. No entanto, em alguns casos os meningiomas envolvem áreas cerebrais críticas causando déficits neurológicos e ou convulsões.

O tratamento padrão para os meningiomas chamados idiopáticos (que acontecem em pessoas sem NF2) consiste de observação (se não existem sintomas e o seu crescimento é lento), ou de cirurgia ou de radioterapia (se o crescimento for rápido ou surgirem sintomas). A maioria dos meningiomas sintomáticos não necessita de novo tratamento depois da ressecção cirúrgica. Em cerca de 25% dos casos, os meningiomas são atípicos ou malignos e a radioterapia é necessária por causa da natureza invasiva do tumor.

Os meningiomas surgem em 38 a 58% das pessoas com NF2 e geralmente são múltiplos (em média, 3 meningiomas por pessoa), podendo ocorrer no crânio ou na medula espinhal.

Apesar dos meningiomas na NF2 poderem ser sintomáticos independentemente ou combinados com os schwannomas (criando os chamados tumores em colisão próximos do tronco cerebral), estudos mostraram que a maioria dos meningiomas não requer intervenção.

Mesmo sem necessitar de intervenção, a simples presença do meningioma nas pessoas com NF2 indica um prognóstico pior para a doença. Num estudo, o risco de mortalidade foi duas vezes e meia maior nas pessoas com meningiomas do que naqueles sem estes tumores. Em crianças com NF2 há maior probabilidade de que os meningiomas se tornem mais sintomáticos e sejam mais responsáveis pelos sintomas do que o schwannomas vestibulares. Desta forma, embora os schwannomas vestibulares sejam os tumores mais típicos da NF2, os meningiomas são responsáveis em grande pelo aumento da gravidade e requerem atenção específica.

Tratamentos

A maioria dos meningiomas ocorre em áreas de fácil acesso por meio da cirurgia e por isso a sua remoção cirúrgica é considerada a terapia de primeira linha pera os meningiomas sintomáticos.

Uma consideração especial deve ser dada aos meningiomas que estão próximos ao seio sagital (uma rede de veias que drenam o sangue do cérebro e que se situam ao longo da parte central superior do crânio – ver figura). 

Nas pessoas sem NF2, a remoção cirúrgica pode estar indicada para este tipo de meningioma para prevenir a sua invasão do seio sagital, mesmo se for assintomático. Nas pessoas com NF2, como os meningiomas geralmente são múltiplos e mais difusos, não está indicada a cirurgia para prevenir a invasão do seio sagital. 

No entanto, é preciso identificar a pressão venosa aumentada que pode ocorrer pela compressão do seio venoso por meningiomas em pessoas com NF2 e que pode ser a causa de sua dor de cabeça crônica, alterações visuais e déficits neurológicos.

Radiocirurgia (radiocirurgia estereotáxica)

Uma série de estudos tem investigado a radiocirugia como tratamento primário para os meningiomas em pessoas sem NF2, mas há poucos dados sobre o impacto deste tratamento em pessoas com NF2. A radiocirurgia tem apresentado bons resultados na remoção de meningiomas em pequenos grupos de pessoas com NF2.

Nos meningiomas em locais de difícil acesso, como a base do crânio e os seios venosos, a radiocirurgia pode ser uma opção de tratamento. Além disso, nas raras situações nas quais os meningiomas são atípicos ou francamente malignos, a radioterapia ou a radiocirurgia podem ser consideradas depois da cirurgia comum, apesar das preocupações que temos com os efeitos colaterais da radiação nas pessoas com NF2.


De qualquer forma, para a maioria dos casos de meningiomas em pessoas com NF2 ainda não há um consenso a favor ou contra a radiocirurgia e a melhor modalidade de tratamento por enquanto é observação (nos meningiomas assintomáticos) e cirurgia convencional (nos meningiomas sintomáticos).

domingo, 3 de setembro de 2017

Tema 321 – Sistema nervoso e dor na NF1 – Novidades do Congresso de 2017

Comentei em outras oportunidades algumas novidades do Congresso de NF de 2017 sobre o problema da dor nas NF (ver AQUI). Hoje trago mais um estudo sobre dor e NF1 que foi apresentado naquele evento pela Dra. Taryn M. Allen e colaboradores do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos.

Adaptei abaixo o texto do resumo apresentado.

Pessoas com NF1 e neurofibromas plexiformes e neurofibromas nodulares podem apresentar dor crônica.

Em pessoas sem NF1, um conjunto de novas informações científicas tem mostrado relações entre a dor persistente e o estado de ativação do sistema nervoso autonômico (aquele que cuida das funções involuntárias, como batimentos cardíacos, movimentos do intestino e outras).

Pessoas com dor crônica tendem a apresentar pouca variabilidade da frequência cardíaca, ou seja, o ritmo dos batimentos cardíacos varia pouco num determinado tempo, o que reflete o estado de ativação do seu sistema nervoso autonômico. A menor variabilidade no ritmo indica maior atividade simpática (mais adrenalina, em termos mais simples), e ao contrário, maior variabilidade na frequência cardíaca indica mais atividade parassimpática (menos adrenalina, digamos).

Essa menor variabilidade da frequência cardíaca está associada com maior dificuldade para se adaptar a situações de estresse físico e psicológico, chamada de baixa flexibilidade psicológica, e também ao menor controle emocional.

No entanto, nenhuma pesquisa havia medido ainda a variabilidade do sistema nervoso autonômico e os processos psicológicos em pessoas com NF1, então este grupo de pesquisadores resolveu estudar 16 adolescentes e adultos jovens com NF1 (média de 24 anos, 43% masculinos) com pelo menos um neurofibroma plexiforme e dor crônica.

Todos os voluntários responderam a questionários sobre sua dor e seu funcionamento psicológico e eletrocardiograma em repouso (posição supina por 5 minutos) para análise da variabilidade da frequência cardíaca. Oito semanas depois, repetiram os mesmos procedimentos.

Os resultados mostraram que menor variabilidade da frequência cardíaca também nas pessoas com NF1 está relacionada à menor flexibilidade psicológica e maior interferência da dor em suas vidas. No entanto, a intensidade da dor não se correlacionou com estas medidas da flexibilidade psicológica, embora quanto menor a variabilidade da frequência cardíaca maior foi a intensidade da dor.

Este foi o primeiro estudo a unir a dor crônica à variabilidade da frequência cardíaca e aos processos psicológicos em pessoas com NF1. Os dados mostraram que nos adolescentes e jovens adultos com NF1 a pouca flexibilidade psicológica influencia o sistema nervoso autonômico e este influencia a intensidade da dor.

Este estudo sugere a complexa relação entre os processos mentais e corporais na experiência da dor nesta população. Diante disso, tratamentos baseados em intervenções comportamentais e sobre o sistema nervoso autonômico podem ser úteis no manejo clínico da dor crônica nas pessoas com NF1, por exemplo, a terapia cognitivo-comportamental (ver aqui resultados desta terapia em pessoas com NF1 e dor crônica – em inglês: AQUI)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Não posso me desesperar

Diante do diagnóstico da doença genética e incurável de uma de nossas filhas, Thalma ouviu da amiga e pediatra Cleonice Mota que precisávamos manter a calma para podermos ajudar nossa menina. Apesar de não sermos culpados pela sua doença, éramos responsáveis pela sua vida. Não adiantaria fugirmos para Manchester ou Toronto, porque isso em nada mudaria a situação. Não havia cura, é verdade, mas havia tratamentos.

Hoje vivo um momento semelhante em meu país, assustado diante de uma sociedade injusta, violenta e governada por corruptos, com nossa população agressivamente se dividindo em grupos intolerantes. Vontade de fugir para Minas, mas Minas não há mais, a lama da barragem levou. Vontade de gritar, mas a rouquidão depois dos sessenta deixou minha voz débil e inaudível. Nem mesmo morrer adiantaria: apenas um caixão a mais para ser carregado.

Sempre fui da classe média, filha mimada na ditadura militar, que cresceu esbanjando Miami e importados, individualista e cheia de superioridades sobre as empregadas domésticas, presunçosa no seu papel de guardiã da ciência e da cultura, e descuidada com a própria educação política, o que resultou em partidos frágeis de conteúdo e vulneráveis aos dólares da elite corruptora.

Minha classe média que engordou seus filhos nos tempos de fartura do lula-consumismo e que agora está vendo seus desejos de voltar à Disney serem interrompidos pela crise econômica mundial. E todos nós brigamos à mesa, acusando-nos mutuamente sobre quem roubou mais ou menos o último bife superfaturado da Friboi. Enquanto isso, nossa cozinheira faz hora extra para pagar por um remédio para seu marido desempregado que está com dengue e febre amarela, porque o SUS está sendo desmontado.

O saudoso Milton Santos[1] escreveu em seu último livro “Por uma outra globalização”, no ano 2000, portanto sem ter tido a chance de viver o que considero o Segundo Milagre Brasileiro (2003-2012), estas palavras indispensáveis:

“Já que não mais encontram remédios que lhe eram oferecidos pelo mercado ou pelo Estado como solução aos seus problemas individuais emergentes, as classes médias ganham a percepção de que já não mandam, ou de que já não participam mais da patrulha do poder. Acostumadas a atribuir aos políticos a solução de seus problemas, proclamam, agora, seu descontentamento, distanciando-se deles. Elas já não se veem espelhadas nos partidos e por isso se instalam num desencanto mais abrangente quanto à política propriamente dita. Isto é justificado, em parte, pela visão de consumidor abusado que alimentou durante décadas, agravada pela fragmentação pela mídia, sobretudo televisiva, da formação e da interpretação do processo social. A certeza de não mais influir politicamente é fortalecida nas classes médias, levando-as, não raro, a reagir negativamente, isto é, a desejar menos política e menos participação, quando a reação correta poderia e deveria ser exatamente a oposta”

Obrigado, professor Milton Santos, pelo diagnóstico da minha doença, pelo acolhimento da minha aflição e pela recomendação terapêutica.

Sim, é difícil admitir que pertenço à espécie Sapiens[2], que possui uma história de violência, genocídios e intolerâncias de todos os tipos, e ao mesmo tempo manter a esperança de que as pessoas norte-americanas removerão a mão insana que tenta apertar o botão nuclear[3] para destruir midiaticamente um ditador anacrônico, numa espécie de irreality show.

E o que podem minhas palavras virtuais, ainda que fossem extremamente virtuosas, contra a destruição ambiental causada por chumbo, cimento e dólares na China? O que posso fazer para evitar a destruição do mais avançado sistema público de saúde do mundo, o que deveria ser o SUS, pelos interesses capitalistas? De que servem meus breves conhecimentos científicos contra a epidemia de obesidade que assola as crianças ao meu redor?

O mundo me parece mais complexo, imenso e injusto a cada manhã e é difícil sair da cama por algum motivo que pareça valer a pena neste cenário com bilhões de atores numa peça que nunca foi ensaiada.

No entanto, preciso reconhecer que a nossa doença da desigualdade social, que gera a corrupção de todos os valores humanos, é genética e incurável, mas há tratamentos possíveis. Nada tenho a perder se me dedicar a participar democraticamente da reconstrução da política, do cotidiano ao parlamento, da mesa com meus irmãos e suas ideias diferentes à cozinha, especialmente, unindo-me à trabalhadora doméstica e seu marido doente, porque estamos no mesmo lugar e no mesmo tempo. Ainda não há outro planeta habitável e não há outra época disponível.

Mais uma vez aprendo que não sou culpado pelo que está acontecendo, mas sou responsável pela minha bilionésima parte neste mundo, vasto mundo.

Não há cura, mas há tratamentos.



[1] Ver vídeo sobre algumas ideias de Milton Santos: https://www.youtube.com/watch?v=WLYZmfJXEDY


[2] Ver o livro de Yuval Noah Harari: Sapiens https://www.saraiva.com.br/uma-breve-histria-da-humanidade-sapiens-8733256.html


[3] Ver o filme que abalou minha geração “Doutor Fantástico” com Peter Sellers: https://www.netflix.com/title/60020009?locale=pt-BR

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Tema 320 – Dúvidas sobre manchas cutâneas e o diagnóstico de NF1

Muitas famílias que acessam este blog ainda permanecem com algumas dúvidas sobre as manchas café com leite e outras manchas cutâneas. O e-mail abaixo, enviado por S. de local desconhecido, é um exemplo desta situação e por isso vou tentar responder uma a uma as questões que ela nos trouxe e me autorizou a divulgar neste blog.

No entanto, preciso lembrar que estas orientações abaixo não substituem o exame clínico pessoalmente com alguém com experiência médica em neurofibromatoses.

“Boa noite! Tenho algumas dúvidas sobre as manchas café com leite. Quase não encontrei muita informação acerca delas nos bebês. Uma neuropediatra pediu apenas para vigiá-las, mas não temos nenhum diagnóstico. Estamos apavoradas. Minha bebê está com 10 para 11 meses. Vamos lá:

Pergunta 1 - Na neurofibromatose, as manchas nascem com o bebê ou são adquiridas? ”


Resposta: Estou entendendo que você está pensando em neurofibromatose do tipo 1 (NF1). 

Na NF1, as manchas maiores do que meio centímetro nos bebês (ou maiores do que um centímetro depois dos dez anos) nascem com os bebês e se tornam visíveis nas primeiras semanas.

Pergunta 2 - Existem casos de bebês com várias manchas café com leite de nascença e que não tinham a doença?

Resposta: Há casos com menos de 5 manchas café com leite (maiores do que meio centímetro nos bebês) que não são NF, mas a existência de nove (9) ou mais manchas café com leite (maiores do meio centímetro nos bebês) é praticamente 100% chance de ser NF1.

Pergunta 3 - Se o bebê nasce com determinado número de manchas e elas não aumentam, significa que novas manchas não vão aparecer? Ou manchas novas sempre surgem?

Respostas: As manchas café com leite (maiores do que meio centímetro nos bebês) não aumentam em número depois que são percebidas. Elas vão apenas crescer junto com a criança, ou seja, não ocuparão mais espaço no corpo da pessoa, mas apenas vão aumentar proporcionalmente com o crescimento.

As manchas menores do que meio centímetro, geralmente parecendo sardas, são as chamadas efélides e estas podem aumentar ao longo da vida em número, mas não em tamanho.

Pergunta 4 - Quando surge uma nova mancha, ela já nasce "grande" ou nasce como um pontinho que vai aumentando?

Resposta: Na NF1, as manchas café com leite (maiores do que meio centímetro nos bebês) já nascem “grandes” e permanecem proporcionalmente do mesmo tamanho, ou seja, crescem junto com as crianças.

Pergunta 5 - Minha bebê tem diversas manchas, mas 6 delas me parecem ser mais importantes: - uma grande mancha marrom acima da nádega esquerda, mas que não é oval; uma mancha oval na barriga; uma mancha esticada na parte interna da coxa; umas 3 manchinhas no tronco que me parecem ser maiores que 0,5 cm. Nem todas são bem marcadas, algumas são de um tom de marrom mais claro... do que deriva mais uma pergunta: essas manchas em um tom mais claro são necessariamente ligadas à doença? E as manchas pequenas?

Resposta: Você descreveu aparentemente mais de 5 manchas maiores do que meio centímetro, portanto sua filha preencheria um dos sete critérios para o diagnóstico de NF1, mas para termos certeza, uma pessoa com experiência em NF1 precisa examinar sua filha pessoalmente.

As manchas pequenas podem ser efélides, ou seja, o segundo critério para o diagnóstico de NF1. Com dois critérios presentes, temos cerca de 98% de chance de ser realmente NF1.

Pergunta 6 - O pai dela tem duas manchas no corpo (braços), mas parecem mais com aquelas manchas atípicas descritas no site. Nenhum de nós tem histórico familiar da doença.

Resposta: Apenas duas manchas café com leite de nascença e maiores do que meio centímetro não são suficientes para o diagnóstico de NF1. Portanto, se sua filha realmente preencher outros critérios para o diagnóstico de NF1 ela deverá ser uma mutação nova na sua família.

Pergunta 7 - Posso mandar a foto das manchas para você avaliar e contribuir para outras mães fazerem comparações?

Resposta: Sim, isto sempre ajuda a responder em termos gerais, embora o exame clínico pessoal seja indispensável para o diagnóstico de segurança.

Pergunta 8 - Outra dúvida: minha bebê tem a altura e o peso abaixo da linha média, e o perímetro cefálico acima, quase ultrapassando o normal. Porém, seu desenvolvimento está dentro do esperado, a única coisa que ela não faz ainda é engatinhar. Alguma relação com a doença?

Resposta: Sim, a estatura e o peso abaixo da média e o perímetro encefálico acima da média são medidas encontradas com muita frequência nas pessoas com NF1.

O menor peso não significa desnutrição, a menor estatura não significa nanismo e a maior circunferência da cabeça não significa hidrocefalia nem tumores cerebrais. São variações anatômicas causadas pela mutação no gene NF1 e que não trazem complicação e não precisam de qualquer tipo de tratamento.

Espero ter contribuído para um pouco mais de conhecimento das famílias com dúvidas semelhantes a estas.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Tema 319 – Novidades do congresso – Parte 5: Dor e NF


A dor crônica, forte e de difícil tratamento pode ser uma das complicações das neurofibromatoses (ver  AQUI post anterior), entre elas a Schwannomatose, cuja principal característica é a presença de múltiplos tumores periféricos (schwannomas) acompanhados de dor neuropática de difícil tratamento (ver abaixo a Tabela com os medicamentos atualmente disponíveis para o tratamento da dor nas NF).

No último Congresso sobre NF, realizado em Washington em 2017, o Dr. Steven Matsumoto, da Universidade Central da Flórida nos Estados Unidos, apresentou os resultados de seus estudos sobre os mecanismos da dor na Schwannomatose, os quais podem abrir um novo caminho no tratamento desta grave complicação.

Traduzi e adaptei para este blog o trabalho apresentado.

Um grande número de pessoas com Schwannomatose apresenta dor intratável. Esta dor pode ocorrer na ausência de um tumor visível e nem sempre é aliviada pela retirada de um tumor encontrado.

Este achado clínico indica que a dor que afeta as pessoas com Schwannomatose não está estritamente relacionada ao crescimento dos tumores e nem à compressão mecânica de nervos pelos schwannomas.

Uma proporção das pessoas com Schwannomatose apresenta mutações no gene SMARCB1 (também chamado de gene INI1, BAF47 ou SNF5). Neste estudo, os autores conseguiram induzir uma mutação no gene SMARCB1 das células de camundongos, mutação esta que não causa alterações na anatomia, nem no crescimento e funcionamento das células nervosas dos nervos periféricos.

No entanto, os camundongos com esta mutação apresentam maior sensibilidade à dor, ou seja, ou seja, um determinado estímulo doloroso é percebido como mais forte por estes animais.

Os pesquisadores perceberam que as células dos gânglios dorsais dos nervos sensitivos destes camundongos geneticamente modificados apresentam maior quantidade de canais de cátions e íons, chamados TRPV1, os quais podem ser ativados por diversos estímulos dolorosos, inclusive a capsaicina, um agente químico encontrado nas pimentas.

Além disso, perceberam que estas células nervosas geneticamente modificadas também apresentaram maior expressão de outro gene envolvido na dor, o gene do peptídeo relacionado à calcitonina.

Finalmente, o metabolismo do cobalto foi alterado pela mutação do gene SMARCB1, o que indica maior atividade dos mecanismos da dor nestas células.

Todas estas alterações foram também encontradas na análise histoquímica em culturas de células retiradas de tumores de pessoas com Schwannomatose.

Em conclusão, o conjunto de dados obtidos neste estudo com camundongos sugere que o mecanismo da dor na Schwannomatose seja dependente de um fator ou de fatores secretados pelas células de Schwann, que induzem a expressão de mediadores da dor nos neurônios sensitivos.

Este estudo abre um novo olhar para o tratamento da dor na Schwannomatose (e talvez também para as outras formas de NF), pois nos alerta para a possibilidade de a dor existir sem tumores ou compressões visíveis, o que necessita de uma abordagem mais ampla e medicamentosa do que exclusivamente cirúrgica.

Veja mais informações sobre a dor nas neurofibromatoses:
AQUI e AQUI e TAMBÉM AQUI



quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Tema 318 - Boas notícias para quem tem a forma segmentar da NF1 – Atualização 2017

A Dra. Luciana Baptista Pereira é professora de dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e minha amiga e nossa colaboradora no Centro de Referência em Neurofibromatoses do Hospital das Clínicas da UFMG. Ela enviou-me um artigo científico recente e interessante, que vale a pena comentar para atualizarmos nossos conceitos sobre uma forma mais rara de NF1, a chamada forma segmentar, sobre a qual já falei neste blog (ver aqui: https://lormedico.blogspot.com.br/2015/06/apenas-manchas-cafe-com-leite-de-um.html ).

O estudo foi realizado pelo Dr. Igor Vázquez-Osorio e colaboradores da das cidades de Gijon e Madri, na Espanha, e publicado em 2017 na revista científica Pediatric Dermatology (ver aqui https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28318056 em inglês).

Eles estudaram 40 pessoas com a forma NF1 em mosaico que foram diagnosticadas num período de 30 anos de atendimento nos hospitais daquelas cidades espanholas.

Para começar, o nome atual sugerido para esta forma de neurofibromatose do tipo 1 é NF1 em MOSAICO, ou seja, uma situação em que a doença se desenvolve depois da fecundação do óvulo e se manifesta em apenas algumas partes ou segmentos do corpo.

As NF1 em mosaico podem ser divididas em quatro grupos de acordo com os achados clínicos:

1) Apenas manchas café com leite e efélides

2) Apenas neurofibromas cutâneos

3) Manchas café com leite, efélides e neurofibromas

4) Neurofibromas plexiformes isolados

O diagnóstico da NF1 em mosaico deve ser realizado apenas depois dos 6 anos de idade, pois até esta idade outros sinais podem aparecer.

No estudo realizado foi observado que em 62% das pessoas com a NF1 em mosaico também ocorreu hiperpigmentação na área afetada em comparação com a coloração das partes não afetadas.

Nenhuma das pessoas com NF1 em mosaico desenvolveu complicações oculares (gliomas), nem hiperintensidades em T2 na ressonância do encéfalo, por isso não há indicação para a realização de ressonância magnética sem sintomas a serem investigados.

Algumas complicações foram encontradas nas pessoas com NF1 em mosaico:

a) Escoliose 10%

b) Problemas de fala 5%

c) Epilepsia 5%

d) Tumores 5%

e) Linfoma de Hodgkin 2,5%

f) Xeroderma pigmentoso 2,5%

No entanto, os pesquisadores concluíram que estas complicações não indicam maior risco para a saúde das pessoas com a forma da NF1 em mosaico.

O aconselhamento genético no momento de ter filhos é parte obrigatória do acompanhamento clínico das pessoas com a forma completa da NF1. Diante da possibilidade de os ovários ou os testículos serem afetados pela forma da NF1 em mosaico, é prudente a consideração de uma possibilidade pequena de transmissão da doença para a geração seguinte. Neste caso, mesmo que um dos pais tenha a NF1 na forma em mosaico, uma possível criança acometida terá a forma completa da NF1.

Como diagnóstico diferencial, é preciso considerar também a pequena probabilidade de ser uma forma em mosaico da Síndrome de Legius.

Em conclusão, parece que a forma da NF1 em mosaico apresenta baixo risco de complicações, mas, devido a série de casos estudados foi realizada com crianças, é prudente o acompanhamento clínico especializado ao longo da vida.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Tema 315 – Novidades do congresso - Parte 4: novo medicamento em estudo para alterações de comportamento na NF1

As alterações comportamentais são uma das complicações da NF1 e ainda não temos um tratamento específico, seguro e eficaz para este problema. Por isso, alguns estudos laboratoriais tentam encontrar um medicamento capaz de melhorar a vida das pessoas com NF1. Um destes estudos [1] foi realizado na Universidade de Radboud na Holanda e foi apresentado pela Dra. Michaela Fenckova no Congresso de 2017, que traduzi e adaptei para este blog.

“A “habituação” é uma capacidade mental de suprimir nossa reação diante de um estímulo que sugere perigo, quando este estímulo se repete sem nos causar danos. A habituação é uma aquisição importante no processo de aprendizado. Ela serve para filtrar informações que não são relevantes e representa uma habilidade necessária para o desenvolvimento de funções cognitivas mais complexas.

Dificuldades de habituação têm sido relatadas em diversas doenças que apresentam problemas cognitivos e comportamentais, incluindo os transtornos no espectro do autismo.

Para determinar as bases genéticas da habituação e sua relevância para estudos em seres humanos, o grupo de pesquisadores estuda a habituação das moscas de banana (Drosophila) com genes alterados para determinadas funções neurais. Os genes alterados estão relacionados com o processo de aprendizado nestes animais e em também seres humanos.

Eles encontraram mais de 100 genes relacionados com a dificuldade de habituação da Drosophila que também estão presentes no transtorno no espectro do autismo e suas alterações comportamentais. Além disso, vários destes genes se caracterizam por uma ativação excessiva de um processo bioquímico nas células nervosas (uma via chamada Ras-MAPK) que também acontece nas pessoas com NF1 e outras doenças do grupo denominado de “rasopatias”.

Os pesquisadores verificaram que a dificuldade de habituação na NF1 e nas rasopatias parece estar ligada a esta via superativada num grupo de neurônios chamados “gabaérgicos”. Verificaram também que esta superativação dos neurônios pode ser parcialmente corrigida com um medicamento chamado Lamotrigina, que corrigiu as dificuldades de aprendizado em camundongos geneticamente modificados para NF1. Depois destes resultados animadores com os camundongos a Lamotrigina está sendo estudada em seres humanos (um projeto chamado NF1-EXCEL). 

Ver AQUI mais informações sobre esta pesquisa que está sendo realizada na Holanda (em inglês).

O grupo de pesquisadores concluiu que seu modelo de estudo de habituação em Drosophila está pronto e é altamente eficaz para ser usado no esclarecimento das dificuldades de aprendizado na NF1 e para testar novos medicamentos. Seus resultados até agora sugerem que a dificuldade de habituação seja um dos mecanismos fundamentais nas dificuldades cognitivas e comportamentais na NF1.

Seu projeto seguinte é avaliar a habituação em pessoas com NF1 para poderem transportar os dados dos estudos com a Drosophila para seres humanos. “

Estes estudos apresentam uma nova promessa para um futuro breve o alívio desta complicação tão frequente entre as pessoas com NF1, até porque a Lamotrigina é um medicamento relativamente bem conhecido, uma vez que já é usado no tratamento das convulsões.






[1] Título: Aprendizado da habituação em Drosophila: uma plataforma para identificar drogas que melhoram a cognição e os problemas comportamentais na NF1 e outras rasopatias.